Notas do inferno

Quando Benjamin escreveu sobre a tarefa do tradutor, apontou que as obras possuíam em si uma capacidade de serem ou não traduzidas. Não culpemos os homens pelas coisas das quais não são capazes.  

Digo isso pois A Frente Fria Que a Chuva Traz (Neville de Almeida, 2015) é um exemplar de filme intraduzível. 

Pode-se tentar:

1 – Há uma laje habitada de burgueses. Eles a alugam para os fins da carne: festas, drogas e sexo.

2 – A laje localiza-se no ponto alto da cidade do Rio de Janeiro. Afora três cenas do filme, permanecemos nela o tempo todo.  

3 – No esquadro da laje, desenham-se os tipos: Alisson (o macho-alfa), Gru (o empregado marginal), Fabi, Cristy e Lilly (parasitas da engrenagem do capitalismo sexual). Por fim, os elementos destoantes: Vitor (o vazio que existe em toda felicidade) e Amsterdã (a frente fria que a chuva traz).

4 – Para a laje, cabe dizer: é o inferno. Lá estão todos os seus representantes. Em Neville de Almeida, não existe cinema de meias-bocas: é mais perto do céu que habitam todos os pecados. 

5 – A Frente Fria Que a Chuva Traz concentra tudo nesse apocalipse. O tesão e a catarse são imediatos: o corpo é charme e é mercadoria, é escambo e é poder. Não é um filme de performance e movimentos, é um filme daquilo que o corpo pode prover, da maneira que ele provêm: aos gritos.

6 – Em A Frente Fria Que a Chuva Traz ninguém fala, tudo se clama: “Welcome to party!”. 

Há um chamamento. No local em que estamos (na laje, no ringue, nos céus), qualquer água é veneno. Grita-se para ser envenenado.

7 – Por fim, vem a chuva. E, se a laje é o inferno, a água apaga o fogo. Do corpo, do sexo, do veneno. 

O apocalipse é reverso, cospe na cara do humano. Água na carne, água no fogo. Deus não vem do céu, vem do chão. Usa sombra nos olhos e ejeta heroína. Em meio ao redemoinho de sensações, o caos é a morosidade. Parar de dançar é o medo real.

8 – Mas o circo dos horrores resiste. O apocalipse é só uma passagem, é só um acontecimento. Paramos, ouvimos, assustamo-nos. Depois, toca-se o som, aperta-se o baseado. Let’s rock.

A chuva passou, podemos seguir queimando.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s