Um filme nas sombras

I

Da primeira vez que me deparei com Os Invasores de Corpos (Abel Ferrara, 1993), não coalhou. Sabe-se lá o motivo, o filme ficou perdido na minha memória e, até então, não havia retornado. Essa semana, entretanto, dei-lhe cabo – antes e acima de tudo, pelo profundo interesse que a obra de Abel Ferrara produz em mim.

O fato foi mortal: considero Os Invasores de Corpos algo próximo de uma obra-prima, escalão parecido com que calço O Vício (1995) e Os Chefões (1996). Explico: de Body Snatchers falou-se sempre através de seu legado, e dois são os motivos principais; 1) ser o primeiro – e único – filme em scope de Ferrara, como também 2) seu primeiro e único filme bancado por um estúdio (a Warner). Outro fato curioso que me vem à cabeça é que Abel Ferrara concorreu apenas uma mísera vez à Palma de Ouro, justamente com este filme – na época, recebido com reações por muito favor mistas.

Entretanto, o que transmuta a situação da obra em si me parece estar muito distante de suas relações históricas e muito mais próxima daquilo que fora sempre o axioma da obra de Abel Ferrara, o corpo e as sombras. Body Snatchers talvez seja o filme de duplo mais suntuoso que o realismo fantástico da literatura argentina (de Borges e Cortázar) não tenha sido capaz de realizar, não tanto pela ótica dos deslumbramentos e caminhos que a narrativa toma (as tais “veredas que se bifurcam”) e sim pela maneira categórica e radical que as sombras (esse “outro” que geramos ao reflexo da luz, nosso espalhamento, desvelamento) assumem. 

Ferrara fora tido sempre – pelo menos a partir dos anos 1990, quando lançou mão das produções exploitations regadas à sangue e violência extrema – como um príncipe das trevas. Olhemos para sua dança da morte (O Rei de Nova York [1990] e Vício Frenético [1992]) e pensemos no quão crucial era a relação vampiresca que seus personagens principais – sempre tão dúbios e complexos, distintos, flanantes – estabeleciam: homens ligados ao submundo das drogas, fadados à uma cruzada moral e cristã que nunca se estabelecia plenamente entre a luz e a escuridão, a moral e a vilania. Os homens de Ferrara guardam em si, como característica principal, um estereótipo indefinido, arraigado à sujeira e ao mistério, mas são perpetuamente desvirtuados por aquilo que a carne lhes oferece enquanto tentação, seja o poder ou o vício.

Os Invasores de Corpos caracteriza-se, então, por ser justamente a obra do cineasta que desafia esse tônus ambíguo que os outros filmes oferecem. Não no sentido metafísico – daquilo que o corpo pode carregar -, mas especialmente em um aporte temático: Body Snatchers é um filme de família, protagonizado por uma personagem feminina, filmado majoritariamente à luz do dia. 

II

Entretanto, é necessário apenas alguns minutos para que possamos perceber um tom central que o filme nos oferece frontalmente, o de ouvinte. Os primeiros sons e ruídos que escutaremos serão os de Marti Malone, viajando de carro com seu pai, madrasta e irmão mais novo, diretamente à uma base militar americana. Desta relação de confidencialidade que se estabelece entre narrador e ouvinte é que torna-se claro que, especificamente nessa ocasião, neste filme em si, não estaremos no campo das dubiedades morais, mas sim do esvaziamento. Se a narrativa de Ferrara opta por centrar-se em uma personagem através de seu subconsciente, de seu relato, é por que será nela – e tão somente nela – que poderemos confiar. Fato verídico, afinal, já que Marti é, para nós também, a única janela de saída de um mundo composto por uma série de posses e transmutações. Os supostos alienígenas tomam conta do corpo humano adulterando suas características mais essenciais: os olhos e os sentimentos. E Marti é a única que passa impune durante todo o processo de transfiguração.

Basta lembrarmos do famoso dito que “os olhos são a janela da alma” para percebermos que Os Invasores de Corpos é quase um filme de reconciliação, de sobrevivência. No lugar da figura funesta, do homem da máfia, do policial corruptível, está uma família de vida média, um centro de poder, de treinamento militar. A maneira que o cineasta sobrepõe esse possuir dos corpos é realizado por meio de um jogo de luz (e não mais de escuro), pois é no reflexo da claridade que surgem as sombras. Os planos abertos e decalcados, quase expressionistas, fazem com que a imagem dos corpos se desvele nas paredes das casas e no interior dos ambientes, e é através desse procedimento que Ferrara nos informa que estamos diante de um corpo em possessão: a carne está dura, arredia em frente ao quadro, ao ecrã; nas suas costas, seu reflexo suntuoso, seu duplo definitivo, o outro nos acomete – revelando que estamos possuídos. 

III

Quando Serge Daney escreveu sobre Stalker (Andrei Tarkovski, 1979) dizia que era necessário jamais esquecer que em metafísica também existe o física. O crítico francês, com isso, tentava traduzir o gesto da natureza humana recordando que somos partes duplas: corpo e alma, motor e sensação. Quando falava em to stalk, dizia que era esta uma conjugação ainda não feita no cinema, a de andar com medo, reticente, em terreno desconhecido. Stalkear era, antes de tudo, um gesto novo.

Questiono aqui, então, se a obra toda de Ferrara não é também sobre uma consciência dessa física dentro da meta? Dessa separação entre o que temos de carne e osso e o que temos de espiritualidade. 

É muito em cima disso que Os Invasores de Corpos é a representação de um filme de duplo, de sombra, de reflexos. Depois de serem possuídos, domados, seus personagens não mais caminham com o meta, os olhos não mais fazem flexões, expressam-se. E essa tal falta de expressão, essa perda do interiorano resvala no que resta de físico: um corpo a andar, marchar, apontar, gritar – nunca a sentir, torcer, rasgar. As coisas acontecem por algum motivo, diz Marti, mesmo que não saibamos qual seja. 

E o motivo central, pelo menos aqui, na obra desse cineasta de trevas, de farpas com o Deus e com o deus, é a comprovação de uma de suas teses mais caras, mais distintas e potenciais, a de que o homem é também um ser, um organismo, um molde (não são os invasores figuras de maquiagem pura a derreter-se? Quase um fantoche), e nele habita uma matéria cinzenta que pende igualmente para os dois lados da balança, nunca certo ou errado, preto no branco, sempre ambíguo, sempre enigmático, incerto, vacilante.

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