Descaminhos e descontinuidades

1.
Confesso que gostei bastante do último de Spike Lee por que é, antes de tudo, um filme de imagens, um labirinto múltiplo de interpretações e subtextos que se acoplam e constituem. Grosso modo, um filme de colagens, por muitas vezes grotesco e direto e, mais do que qualquer coisa, completamente impróprio ao que o cinema americano contemporâneo considera como ousado ou radical nos dias de até então. É um filme com vários outros dentro de si – e não me interessa particularmente desvendá-los ou decifrá-los, gosto mesmo é dessas dúvidas e enigmas que a projeção me apresenta. Exatamente por isso, o considero também um filme bastante corajoso, não só em sua linguagem, mas porque implica diretamente em uma lógica não-reducionista das situações e dos personagens, e tentar interpretá-lo ou significá-lo, afinal de contas, seria por muito desencorajador ou medíocre.

2.
Isto posto, fica claro que Da Five Bloods se trata de um filme de caráter polêmico por todos os atravessamentos políticos que uma obra acerca da experiência de soldados negros na Guerra do Vietnã pode oferecer. Mas como disse antes e reitero aqui, reduzi-lo a uma ou outra leitura parece improdutivo, visto que sua riqueza emerge justamente do anacronismo de sua amálgama, e não de um objetivismo simplista. Toco nesse ponto porque as impressões acerca do lançamento do filme, em sua maioria, parecem jogar de acordo com uma necessidade de interpretação e compreensão muito clara e direta de um filme que não se propõe a isto. Tomo como exemplo um texto publicado na Folha de São Paulo que pratica uma defesa por demais genérica e desonesta de que Da Five Bloods teria apagado o desastre militar americano no Vietnã. Desonesta porque limita-se a uma leitura meramente política dentro de um projeto de cinema que sempre foi – e o é mais do que nunca – muito além destes campos e áreas de confronto/interesse; genérica pois argumenta de maneira muito vaga sobre a forma do filme, e justifica suas teses baseado simplesmente nos desenlaces narrativos das tramas. É mais ou menos como colocar 1917 (Sam Mendes, 2019) e Da Five Bloods no mesmo saco. Uma tristeza.

3.
Se o filme de Sam Mendes era tanto celebrado quanto criticado justamente por tratar a guerra de uma visão muito lógica, a do espetáculo, era porque seu filme era feito por essa ótica, e sua linguagem baseada no plano sequência forjava uma gama de interpretações que centrava as leituras entre um lado ou outro, o fetiche ou a atração. Acontece que Da Five Bloods é uma miscelânea muito distinta do filme de Mendes, e seus desdobramentos políticos não se calcam ou constroem de maneira alguma através de um gesto celebratório ou comemorativo da guerra. O cinema de Spike Lee nunca foi um cinema afeito a primeiras ou segundas leituras, sempre esteve dentro dos subtextos. Nunca foi de escolher apenas um lado do confronto e segui-lo obstinadamente (como mártir, como o soldado britânico de 1917), mas sim de articular sentimentos e impressões entre os terrenos díspares e inimigos, entre membros da Klu Klux Klan e do corpo policial, entre o pizzaiolo italiano e seu empregado negro, entre todos aqueles das castas que são abordados. Lógico que é um cinema pra lá de cínico, de perverso, de um discurso político muito bem estabelecido, mas nem por isso deixou-se ser um cinema reducionista. Nem em caráter imagético nem em caráter social. Por isso mesmo, reduzir sua leitura a um ou outro lado é algo pejorativo, completamente parcial.

4.
Afinal de contas, o melhor exemplo dessa incapacidade de interpretações às claras seja mesmo Da Five Bloods, por que é onde Spike Lee se estabelece cada vez mais como um cronista ácido do que tem sido a Era Trump na América. Paul, o personagem principal do filme, é exatamente um eleitor de Donald Trump e, ao mesmo tempo, ao invés de rotulá-lo, Lee o toma como talismã, o recolhe para um lugar melancólico e pessoalizante, humanizado, não o faz para legitimar um ou outro discurso. Esse ponto é apenas um dos pontos muito à parte em Da Five Bloods, outro em especial seria a atuação de Delroy Lindo, daquelas coisas que acontecem uma vez a cada dez ou quinze anos no cinema americano. Poderia citar tantos outros, acho que o fato de ser o filme mais gráfico de Spike Lee desde Faça a Coisa Certa (1989) também é algo a se levar em conta, ou mesmo a mudança abrupta da trama do primeiro para o segundo terço do filme, tornando um filme político de reencontro em uma narrativa apocalíptica de guerra, cheia de espelhamentos e revelações. As ideias e óticas são muitas, e elas estão todas lá, escondidas em algum lugar profundo daquela floresta. Não tive e tampouco tenho a intenção de vasculha-las, mas sei que estão lá, e esse é seu grande trunfo. Ser um filme maneirista, hiperativo, moderno, muito fora do comum. E por isso mesmo essas leituras fugidias o assombram, por que é muito difícil totalizar um cinema que vai do risível ao chocante muito rápido, que traça sua linha de força tanto na película quanto no arquivo, tanto no passado como no futuro, por que é um filme que desvirtua-se e renega-se quando menos se espera. É só pensar na imagem de Delroy Lindo, eleitor de Donald Trump, sozinho na selva, e em como a câmera o acompanha para fazer um cumprimento do exército e, quando menos esperamos, vemos aquela mão tornar-se um punho alçado aos céus, símbolo dos Panteras Negras. Um punho irreconcilíavel, irredutível, tal qual o seu cineasta.

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