Morrer com os zóio aberto: Sérgio Ricardo (1932-2020)

Texto inspirado em passagens do Discurso de Sebastião, com composição de Sérgio Ricardo, em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964).

I – O homem não pode ser escravo do homem

Não foi. Hoje finou deste plano o geminiano Sérgio Ricardo, de nobreza e contribuição inestimável para o povo brasileiro. Sua música, seu cinema e sua arte, mais decididamente.

Falo em geminiano porque o predicado é fundamental: multiplicidade e criatividade. Isso Sérgio teve – e tanto: músico, cineasta, ator, roteirista, poeta, escritor. Mais que múltiplo, foi angular: compositor de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967), ambos de Glauber. Ambos testamento do Cinema Novo. Ainda sobrou talento para mais: cineasta de carreira lacunar, porém longeva – A Noite do Espantalho (1974), Esse Mundo é Meu (1964), Menino da Calça Branca (1961), Juliana do Amor Perdido (1970), Pé Sem Chão (2014) e Bandeira de Retalhos (2018). Pode haver mais, esses cá lembro mais ou menos de cabeça. 

Lembrar de nunca esquecer da existência destes filmes, lembrar de nunca esquecer da beleza e do balé do plano de Esse Mundo é Meu; do bailar solar quase infinito e rodopiante na roda gigante. 

Gosto de lembrar. Por aqui a gente já não lembra de mais nada e eu gosto de tentar lembrar: Suzana Amaral, Flávio Migliaccio, Leonardo Villar… Sérgio Ricardo. Alguns nomes, muita história. 

II – É preciso mostra aos donos da terra, o poder e a força do santo

…tô condenado mais tenho coragem

Nunca esquecer também do violão quebrado. Festival Record, ano de 1967. Beto Bom de Bola ecoava em um balanço bagunçado em meio ao estrondo das vaias. Desnecessário dizer da beleza da música, da risível premonição – quem lembra de Bebeto quando se teve Romário?, triste mas verdade – ou dos timbres que até hoje ecoam em bares e lares por aí. O que era genial, na verdade, era aquele momento: Sérgio Ricardo com postura de inconformado: “um minutinho, por favor”. Ninguém calava. “Não consigo nem ouvir a melodia”

Eis que vem o relance da coragem, o não calar-se. O homem brada “vocês venceram!”, mas, antes de sair, racha o violão na frente de todos e arremessa para a platéia. Completo algoz. Desclassificado imediatamente.

Triste, claro, não fosse trágico. Mas sempre necessário lembrar que este é um país trágico, de políticas trágicas e que aquele era um momento trágico. E da tragédia faz-se transformação. Tal qual os filmes de Glauber, tal qual os filmes de Sérgio. É da tragédia que moldam-se os homens e os balés e bailes deste foram todos moldados em meio a estes turbilhões de vaias e barulhos, de censuras e mesuras. 

Por isso, às vezes, é necessário quebrar o violão e arremessá-lo ao inimigo. Não basta calar-se. É preciso se calar fazendo barulho. Jogar para fora esta bomba chamada silêncio.  

Sérgio Ricardo.

Entregou sua força ao seu santo, para libertar seu povo.

III – Existe uma terra, onde tudo é verde, os cavalo comendo as Flór e os menino bebendo leite nas água do rio

Os Homi come o pão feito de pedra e poeira da terra vira farinha

Hoje Sérgio sobe a escada de pedra e de sangue. Sobe em meio a esta seca – com fogo saindo das pedras e os prefeito, as autoridade e os fazendeiro, dizendo que estava mentindo e que o sol era culpado da desgraça. 

Sobe em meio ao deserto árido de desmantelo – de tudo aquilo que foi e representa, política e culturalmente.

Hoje Sérgio sobe e o Mar anda bem longe de virar Sertão.

IV – Tem água e comida, tem a fartura do céu e todo dia quando o sol nasce

Sobe, mas deixa um legado imenso.

E nele, é necessário fiar-se.

Tomar como exemplo.

Refazê-lo.

Nem que pra isso precisemos quebrar um violão por dia.

Para que não esqueçamos nunca mais de quem foi o maior craque da história.

Boa passagem, Bebeto Bom de Bola.



por Rubens Fabricio Anzolin

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