Em busca da imagem

Muito já se falou que The Blackout (Abel Ferrara, 1997) é um filme de heranças claras para com Hitchcock e Godard – mais especificamente para com Vertigo (1958) e Numéro Deux (1975). Da presença de uma femme dupla (obsessão do protagonista), uma miragem, obviamente, até uma citação direta ao cineasta francês e alguns planos quase ipsis-literis de Numéro Deux, The Blackout claramente aceita e reverencia com vigor a ontologia de suas investigações. Não necessariamente por querer refazê-las senão muito mais pois às acolhe como pares (e aos seus realizadores como orientação) para também adentrar em um terreno de investigações. Com The Blackout, Abel Ferrara também nos pergunta: o que pode uma imagem?

Se a indagação sugere que The Blackout é portanto um filme de respostas, é importante alertar que o desígnio é diferente: The Blackout  é um filme de busca, de procura, jamais um filme de encontros. Matthew Modine é o protagonista astro de cinema que estará atrás de sua quase futura esposa durante o filme todo, após descobrir que ela realizara um aborto. Explicar este fiapo de trama é para ajudar a entender que 1) The Blackout é muito mais sobre uma busca da imagem da femme idealizada por Modine que sobre ela propriamente; e 2) é muito mais sobre uma busca de Modine na própria imagem que dele é reproduzida nas diversas telas do filme do que sobre querer encontrar-se em meio a uma jornada de redenção.

The Blackout é, portanto e no fim das contas, um filme de miragens. Uma versão Ferrara de viagem ao inferno entre o digital e a película – entre a idealização e o horror de sua mímesis -, um filme de terror em suporte para o cinema. Se existe algum quê do cineasta aqui é essa tensão e esse tensionamento obsessivo pelo desejo: Modine deseja a imagem de sua femme enquanto busca fugir do pavor que as imagens filmadas por Dennis Hopper lhe apresentam. E, se The Blackout é um filme de miragens e de imagens, sobre (e por) Godard e Hitchcock, é lógico também que é um filme sobre cinema. (Não à toa, é um filme sobre um ator real de cinema a estar fazendo um filme enquanto delira sobre si na imagem deste próprio filme que é gravado).

Pois então, se The Blackout é esta tríade quase uníssona: miragem-imagem-cinema, é por que é antes de tudo uma coisa só: signo. Na edição 759 da Cahiers, Godard dá uma entrevista em que diz que a linguagem é um signo e que “…o problema é que as pessoas articulam esses signos sem a coragem de fantasiar o que aconteceria se as convenções fossem usadas de outra maneira”. Pois Blackout é nada mais que Ferrara a reconhecer estes signos (ensinamentos de Godard/Hitchcock) para refazê-los à sua maneira sob a luz de sua sina: o desejo, o sexo e o corpo. O cinema. 

Em The Blackout, Ferrara abusa desse poder do signo e daquilo que as imagens podem representar para calcular hipóteses de como dar vazão ao delírio (Modine a surtar na cortina do hotel em Miami), a morte (a garota Annie 2 a ser sufocada) e ao cinema (Hopper a filmar um filme com cinco ou seis câmeras digitais a serem reproduzidas instantaneamente). E, por ser um filme de cinema, um filme de mímesis, um filme de imagem (e nesse sentido preciso ressaltar que valeria uma sessão dupla lindíssima com 24 Frames, de Kiarostami, ou com Femme Fatale, de De Palma), é lógico que é também um filme-tentativa/filme-investigação do próprio Ferrara sobre suas hipóteses do que é e do que pode o cinema. 

Por Rubens Fabricio Anzolin

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