Tudo é destino

O Sonho de Cassandra se encontra dentro da encruzilhada moral que rendeu a Woody Allen os seus melhores filmes. Algum lugar que existe na relação existencial entre o sonho do capital e a pulsão de morte, pois estas coisas, afinal – capital e morte -, sempre andaram de mãos dadas. Por isso mesmo não há surpresa alguma em levar O Sonho de Cassandra ao pé da letra como o filme mais hitchcockiano de Allen, em que o desejo mesquinho (a moça prometida, a terra dos sonhos, o liberal american dream) é a senha para desencadear o que há de mais escuro na alma humana. 

E mais: falo em Hitchcock porque o grande trunfo de O Sonho de Cassandra está em como o desejo e a morte moram ambos em um mesmo lugar: na imagem. Por isso mesmo é lógico dizer que um olho apurado lembrará de um plano muito específico da cena inicial, em que o personagem de Ewan McGregor alicia seu irmão, Colin Farrel, a comprar um barco usado quando nenhum dos dois sequer tem dinheiro para fazê-lo. McGregor dá a letra para Farrel enclausurado entre as grades de um portão, algo na película que já nos avisa de antemão que existe um passeio ou uma linha naquela transação que não deveria ser cruzada. “O barco não é novo, mas parece novo”, fala McGregor. O que importa é a aparência.  O cinema é, e sempre foi, afinal, sobre ilusão. O personagem de Colin Farrel logo descobrirá isto.

Outra coisa a se notar é também como Allen filme uma conspiração: quando o personagem de Tom Wilkinson dá as caras para pedir que os irmãos cometam por ele um assassinato em troca da terra prometida, da fortuna, Allen filma-os sem meio a chuva e ao verde das folhas das árvores, sempre a lembrar-nos do díptico entre dinheiro e morte. Mas existe algo mais em O Sonho de Cassandra, esse algo que fará com que culpa e pecado desestabilizem todos os sonhos – do casamento à loja de esportes, dos Hotéis na Califórnia ao amor prometido.

Esse algo é o destino. Pois o que nem McGregor nem Farrel entendem, até então, é que a vida anda em círculo – e o de cima, sempre sobe; o de baixo, sempre desce. Daí se transfigura todo o ensejo de Sonho de Cassandra, pois tanto McGregor quanto Farrel são da classe trabalhadora, tanto McGregor quanto Farrel estão dentro de um estereótipo do “irmão que deu certo” e do “irmão que deu errado”, tanto um quanto o outro estão fadados ao destino. E, após a morte – o assassinato, o conluio, o acordo com o diabo (filmado sempre entre a folhagem verde das árvores para lembrar-nos de que ele mora no mesmo material do qual são feitas as cédulas) -, não há hipótese de retorno. É necessário que se entenda isso. Mesmo que o personagem de Farrel queira arrepender-se, vá em busca de sua tão sonhada crucificação, da resiliência na cadeia, Allen nos avisa em praticamente todos os planos (com o sublinhar dos dedos e unhas sempre engraxados do personagem) que, ao fim de tudo, é justamente ele que estará fadado a assassinar o irmão, a ser o algoz, a sujar as mãos. Pois para quem cruza a linha da moral, não há salvação. Para quem atravessar o destino, será tudo destino depois. Pois a vida é um ciclo ingrato, não a terra prometida. Igual afirmam os policiais limpa-sujeira do fim do filme: “todo dia uma coisa diferente”. Pois tudo permanece, sempre em ciclo, igual o balançar da água que sustenta o barco Sonho de Cassandra do início ao fim. O destino foi selado, não haverá retorno.

Por Rubens Fabricio Anzolin

Autor: rubensfabricio

Cinema e Audiovisual (UFPel). Pratica curadoria, exibições, realiza produções e escreve sobre filmes.

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