Eu sou a multidão | Olhar de Cinema #3

O procedimento primeiro que abre Entre Nós Talvez Estejam Multidões (Pedro Maia de Brito e Aiano Bemfica, 2020) é o cruzamento da voz de uma mulher com a imagem de um coletivo de moradores da ocupação urbana Eliana Silva. Enquanto ouvimos falar sobre um processo de assimilação daquele território – a moradora expunha a necessidade de regularizar aquelas ruas, endereçá-las devidamente para que não pudesse haver a possibilidade de escamoteamento governamental – a câmera ficava comportada olhando o burburinho se formar. Durante os poucos minutos em que juntam-se pessoas àquela roda de começo de noite, mais e mais a voz da moça é entoada, gerando um sinal de curiosidade: afinal, onde está a mulher que ecoa notícias e mandamento aos ocupantes?

Esta é uma resposta que Entre Nós Talvez Estejam Multidões não pretende nos dar. Ou, melhor dizendo, já nos dá de antemão: aquela mulher não necessita aparecer, ser vista, filmada, pois tanto ela quanto sua voz não fazem coro à uma individualidade programada, mas sim a um processo de coletividade: se os cineastas praticam um gesto de recusa em filmar o seu rosto, não é necessariamente porque negam sua individualidade, mas sobretudo para reafirmarem um processo coletivo de construção. Deste procedimento, nasce a metonímia fundamental para acessar o filme de Pedro e Aiano: para que se possa filmar devidamente uma ocupação urbana, uma construção comunitária, é preciso incorporar à sua lógica. É preciso que a câmera, naqueles espaços, seja também um ocupante, um morador. É preciso, antes de tudo, querer escutar – gesto que o filme pretende com louvor. Ouvir com os olhos para, depois, ver com a lente.

O que pode soar curioso neste processo de “ouvir com a câmera” – algo que implica, quase que naturalmente, em um processo de construção imagética mais passiva, passional – é o fato de que Pedro e Aiano sejam os realizadores de dois dos filmes mais incontornáveis desta última década de cinema brasileiro, Na Missão, Com Kadu (2016, co-dirigido com Kadu Freitas) e Conte Isso Aqueles Que Dizem Que Fomos Derrotados (2017, co-dirigido com Camila Bastos e Cristiano Araújo). Se Entre Nós Talvez Estejam Multidões causa espanto por esta lógica mais, digamos, comportamental, é justamente porque tanto Na Missão… quanto Conte Isso… são filmes que colidem conosco de solavanco, na brutalidade do arrebatamento; obras que retratam sempre o calor da hora da cruzada violenta entre o real e o político traçada pelos moradores do MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas).

Entretanto, apesar dessa alternância evidente no estilo do regime cinematográfico de Entre Nós… em equiparado à Na Missão… e Conte Isso…, todos estes filmes são cerceados pela lógica da construção coletiva. Não haveria pacto ou partilha possível entre membros de uma comunidade/luta específica – ainda mais em se tratando de um local em que a organização e a troca são duas matrizes essenciais – e um conjunto de cineastas/realizadores, caso os mesmos não fossem capazes de saber como comportar a câmera (objeto que muitas vezes engasga ou condena) diante destes locais políticos e, acima de tudo, estratégicos. O que se sucede, afinal, é que os resultados fílmicos gerados por estes anos de convivência são também uma estratégia de como – e para onde/quem – apontar a sua ferramenta audiovisual e de que maneira modular o resultado que ela gera.

Entre Nós Talvez Estejam Multidões é, então, um filme soma de todos estes processos e costuras: a estratégia para filmar, a postura para escutar e a sutura para modular as imagens. Entre recortes de personagens específicos, reuniões de planejamento e uma e outra conversa no bar, a ocupação Eliana Silva atravessa às eleições presidenciais de 2018. 

Se falei antes em postura, em uma câmera que pretende se comportar diante daquelas pessoas, é porque acredito que é justamente isto que permite a Pedro e Aiano construir um filme que é uma espécie de palimpsesto. Não acompanhamos uma liderança ou um morador específico, o que se passa em nossa frente são as várias facetas de uma localidade que é, antes de tudo (e tal qual a voz que abre o filme) uma representação de um conjunto. E aí preciso também dizer que há algo de muito melancólico nas variações de relatos daqueles moradores – principalmente na mãe que não mede palavras para dizer que “não manda recado” e no menino que toca Leonard Cohen no quarto sem qualquer tipo de introdução ou mediação prévia. 

Da tentativa de captura destes pequenos indivíduos que compõem um todo muito mais geral – específico, complexo, repleto de contradições -, Entre Nós Talvez Estejam Multidões retira o que há de mais interior ou sincero daquelas vivências, através da naturalidade da convivência. Até que surgem momentos onde essa relação da câmera em assistir a troca dos moradores torna-se incontornável, como quando um homem negro discute a política de Bolsonaro com outras duas mulheres, ou mesmo quando um morador vai questionar outro acerca de seu voto. Nessas ocasiões, não há nenhum gesto dos cineastas que preveja a interferência ou a indução, pois há, antes de tudo, um entendimento de que, para filmar aquele mundo, é preciso atribuir-se à ele. Fazer da câmera, também, uma parte da multidão.

E, ao fim, ao tecer estas costuras particulares (interessante notar que nenhum dos entrevistados retorna ao filme individualmente, apenas em aparições coletivas), Pedro e Aiano traçam uma escrita cinematográfica que não prevê nenhuma tese de antemão, mas que reafirma, nesse comportamento muito bem demarcado da câmera como parte do espaço, como ouvido antes de olho, um processo de existência destas vidas a partir do momento-espaço em que se encontram. Preocupados muito mais em tornar palpável o ato de retratar uma comunidade do que em buscar respostas fáceis a partir destes corpos sociais. Compreendendo que, para filmar, é necessário ser parte desta geografia – e ser parte significa também observar as discordâncias e as dicotomias de onde se está. Viver o universo, incorporar-se à vida, até que surja um plano estratégico de fuga ou um confronto político bem ali na mesa do bar. 

Por Rubens Fabricio Anzolin

Filme visto no 9° Festival Olhar de Cinema

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