O signo da desgraça

Algum dia sonhei em ser detentor de uma sensibilidade crítica que chegasse perto de um João Bénard da Costa. Sonhei também que, quem sabe, pudesse tatear palavras diretamente de minha memória inconfundível de poeta, assim como Drummond. Ou mesmo que minha escrita fosse um célebre fiapo de história, a remontar a vida de um cineasta chamado Jean Vigo, tal qual fez Paulo Emílio. Sonhara eu em escrever romances com picuinhas do universo  literário com a soberba ruminante e desiludida de um Bolaño. Outro dia, também sonhei ter sido um ilusionista mágico, como Deren ou Lumiére, e suponho que, assim, já me consagraria completo. Na verdade, ser um terço – ou um décimo, vigésimo, centésimo – de qualquer um destes sujeitos tornaria-me quase que absoluto para com as tarefas que suponho dever cumprir nesta passagem e neste tempo. Salvo engano, até onde recordo, sonhar “ser” algo – ou estar perto de sê-lo – ainda é um dos combustíveis mais incessantes para transformar-nos em outra coisa que não aquele “algo”. Digo, sonhar em ser aquilo que me escapa – e que nunca serei – já faz com que eu esteja minimamente mais perto de, factualmente, ser algo. No duro, posso dizer, não quero ser nada disto. Mas ter querido ser já me é suficiente para aquilo que hoje afirmo que sou. Um pouco de sonho e uma outra grande parte, bem maior, constituída da dureza de não tê-lo realizado. 

Toda vez que assisto a algum filme de Christopher Nolan me indago incessantemente sobre o que é, afinal, que este sujeito sonha em ser – e talvez isso diga muito sobre a incapacidade de seus filmes. Receio que eu fosse ainda muito novo (ou muito desligado desse universo) na época em que o cineasta britânico declarou-se o suposto “salvador do cinema” ou o novo filho do blockbuster americano – leia-se, nesse contexto, Spielberg e Jaws (1975) como os pais. A bem da verdade, ninguém doou a Nolan este legado – talvez apenas a crítica americana da época de O Cavaleiro das Trevas (2008), o que, quase que por óbvio, invalida esta chamativa, tamanho nível de desserviço prestado ao pensamento cinematográfico durante tantos anos. Acontece que, até onde me prossegue o pensamento, quem teria tomado para si o rótulo de judas da arte do cinema fora unicamente o cineasta. Reescrever sua história, uma história do “cinema de massas”, do “cinema popular” moderno, parece ser a sua grande chaga. Mas – e também justamente por isso – voltemos ao ponto: com o que será que sonha Christopher Nolan?

A nível pessoal, sei tão pouco quanto qualquer pessoa que simplesmente assiste aos seus filmes a cada lançamento. (Para ser sincero, não me interesso para muito além disso). Mas se esboço um exercício de reflexão sobre o sanduíche cinematográfico que Nolan fabrica, sem exceção, quase que a cada dois anos, encontro algumas respostas um tanto inesperadas. A primeira delas é oriunda do espaço, da astrologia. Explico.

Nolan é de leão. E, por mais risível que isso possa parecer diante daquilo que se julga uma “escrita crítica”, me soa bem ponderável esta chave. Recordo com muito carinho quando Luc Moullet escrevera sobre os signos dos cineastas e dissera que os leoninos são acumuladores incontestáveis – diretores que orquestravam sucessos de bilheteria apadrinhados pelo grande público. Cita-se De Mille e Hitchcock, por óbvio. Mas fala-se também em Kubrick – este, muito menos talentoso que os dois primeiros. Entretanto, não há possibilidade de engano no arremate: talvez o grande painel de espelho para o leonino Christopher Nolan seja mesmo a carreira do leonino Stanley Kubrick, dois cineastas que deflagram em sua essência duas das piores qualidades para os realizadores destes astros: o perfeccionismo e a grandiloquência.

Quiçá, meu primeiro chute, Nolan sonhe em fazer justiça às bodas de Kubrick moderno (mesmo que jamais pareça capaz de filmar coisas como De Olhos Bem Fechados ou Dr. Strangelove). Sou bastante ciente que essa suposição intensificou-se na ocasião do lançamento de Interestelar (2014) e, com ele, comparações pra lá de injustas com 2001. (Daqui, não vejo maiores méritos em qualquer um dos filmes, mesmo considerando grandezas incomparáveis desde o momento de suas concepções). Mas se avançarmos um pouco adiante na lógica da estética do signo de leão encontraremos uma comunhão severa: Nolan e Kubrick são estetas da perfeição. Não foge-me à cabeça que nos dois realizadores há o acompanhamento de um aparato técnico considerável – grosso modo, filmes feitos com um orçamento massivo e com equipes profissionais de primeira linha. Pensemos no quanto se fala da lente NASA que Kubrick usou para filmar Barry Lyndon (1975) e em como isso talvez chame tão mais atenção que o próprio projeto de cinema por trás do filme. Com Christopher Nolan e suas atrações de IMAX não é lá muito diferente. Daí a graça do sujeito se considerar um gênio apenas por comprar – e destruir – um Boeing inteiro para as filmagens de Tenet (2020). Fica cada vez mais claro que se trata de um projeto de perfeccionismo, mas sobretudo de um projeto de escrita cinematográfica (se é que poderíamos validar isto para estes autores) que baseia-se majoritariamente no esforço de produção de seus filmes. 

Para Nolan – e Kubrick, talvez – o que parece validar suas obras é justamente o esforço que um sujeito é capaz de exercer até chegar aquilo que deseja. No fim das contas, não se trata mais dos filmes, mas do quanto se sofre para realizá-los. E isto é de uma pobreza estética tamanha. Não por que os cineastas – e falo aqui bem mais no caso de Christopher Nolan do que de Stanley Kubrick – tentam mover montanhas para a realização de uma obra cinematográfica, mas unicamente porque seus resultados e conclusões passam à léguas de distância em relação ao esforço medido na feitura dos filmes. Mesmo para aqueles que imaginam terem viajado ao espaço – ou levado algum espectador até ele – a máxima segue a mesma. Maior o tombo, maior a queda.

Outra coisa interessante que Luc Moullet também conta acerca do signo de leão é o contingente do que chama de mavericks (grandes cineastas que nunca receberam este título ou o abraço da grande massa). O francês cita Sam Fuller, Nicholas Ray e Budd Boetticher. Eu acrescentaria outros três gigantes: Wes Craven, Mario Bava e M. Night Shyamalan.

Mas e Christopher Nolan, então? Afinal este texto deveria ser sobre ele e seu último filme, Tenet. A esta altura parece claro que Nolan nunca sonhou ser um maverick. (Até por que não daria meio dedo de qualquer um destes cineastas, quiçá uma unha). E nem poderia, pois é nesta tangente que mora a diferença entre alguns leoninos e outros. Eis meu segundo chute, não mais daquilo que Nolan sonha em ser, mas daquilo que talvez pense de fato que é: um sujeito sério. Cabeçudo.

Imaginemos o que o cineasta britânico pensaria se escrevesse um filme como Pânico (Wes Craven, 1996), numa lógica de diálogos supra-metalinguísticos que escancaram minuto a minuto o quanto o seu realizador escolhe não se levar a sério diante de todos os conceitos de um gênero como o horror (e daí mesmo nasce o seu trunfo). Penso também no que diria Nolan se algum dia escolhesse encerrar sua trilogia de heróis como Shyamalan, em um confronto derradeiro e mortal diante de um estacionamento psiquiátrico – como faz em Vidro (2019) – e não em um estádio lotado de futebol americano – vide o último filme da trilogia do Batman. Para Chris Nolan, tudo isso parece muito inviável, pois são gestos de realização que não carregam em si qualquer grau aparente de seriedade, pose ou inteligência. Nolan é um cineasta completamente incapaz de ter um senso de sensibilidade. Tudo para ele são máquinas e destroços. E, claro, uma trilha estrondosa patrocinada por Hans Zimmer sempre preparada para fazer seus filmes soarem como a última tragédia monumental da história do cinema.

No fim das contas, esses dois fatores astrais – o perfeccionismo e a seriedade – retiram de um projeto de cinema, o de Nolan, aquilo que ele pareceria capaz de ter como elemento mais interessante. Se pensarmos em um filme como Tenet, todas estas explicações ficam ainda mais reluzentes. Para o cineasta, é impossível que se crie uma obra de viagem no tempo – fluxo temporal, entropia, o que quer que seja – sem que grandes explicações físicas venham à tona. Ou seja, o que de mais curioso este filme poderia ter, tal qual seus personagens, aguarda por uma morte dolorosa na beira da praia. É inegável que existem cenas de ação e coreografias espaciais rebuscadas em Tenet, entretanto, todas elas são suprimidas em um jogo de diálogos indecifráveis sobre organizações políticas, teoria quântica e sacadas de personagem. Nenhum destes três fatores, inclusive, vêm à tona exatamente, são todos misturados em um puro suco de metafísica de bar. Pergunte à Christopher Nolan o que há de melhor em Big Trouble In Little China (John Carpenter, 1986) e o cineasta não saberá lhe responder. Pois, apesar de um realizador como Carpenter possuir bons atores tal qual o cineasta britânico – e de trabalhar com um orçamento muito mais enxuto – o que importa mesmo é saber modular a sua proposta. Para Carpenter, o significado real da trama que vá para o escambal e com isso é possível fazer riso e perspicácia em cada falta de explicação sobre os significados de uma realidade. Eis um verdadeiro cinema de massa. De Sessão da Tarde. 

Agora, imagine, seria possível que filmes como Memento (1999), Dunkirk (2017) ou Tenet (2020) passassem na Sessão da Tarde? É bem provável que não. Por que, por mais que este seja o rótulo que Nolan queira estampar, queira vender, queira lotear em sua estreia de cinema precipitada em tempos pandêmicos, isto jamais seria possível. Estamos diante de um cineasta que não entende os sérios liames entre um filme que se julga Tela Quente e o desejo de ser um realizador Sessão da Tarde. Alguém que se leva a sério demais, que é perfeccionista e megalômano demais para não conseguir ver a mínima graça em sujeitos dando piruetas invertidas até a morte. Christopher Nolan, eu diria, é a sua própria desgraça.

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