Relicário de imperfeições – 60 filmes de 2020


Começo explicando o título, que já — quase que automaticamente — explica a lista. Um relicário de imperfeições nada mais quer dizer que um aglomerado de filmes (lançados entre 2018 e 2020) que pude ver neste ano. Como geralmente fala-se só dos longas, dessa vez resolvi também elencar alguns curtas. 20 deles, para ser mais específico. Os outros 40 são filmes de maior duração. Também tentei evitar alguns filmes que já havia citado em outras listas aqui, como Sete Anos em Maio (Affonso Uchôa, 2019) ou A Noite Amarela (Ramon Porto Mota, 2019).

Agora, sobre imperfeições: a resposta é tão óbvia quanto se espera: sou um amante de listas pelo que elas tem de imperfeito, de perdas. Pois sei puramente que elas não são totem algum e também que estão em eterna mutabilidade e alternância. Dito isso, para fazer o mea-culpa mais correto, deixo aqui outras três listas recentes que devem ajudar a suprir este ano de cinefilia intensa com um grau um pouco maior de atenção e detalhamento que a minha. 1) A votação dos curtas Incontornáveis desta década (2010-2020), feita por Adriano Garrett no Cine Festivais; 2) O levantamento de Pedro Lovallo sobre seus filmes favoritos pré anos 2000; 3) E, por fim, a listagem de Pedro Tavares em seu blog, Hello Cinephilia, com seus 100 filmes preferidos do ano.

Lá, possivelmente, haverão listas mais perfeitas. Com filmes que, possivelmente, estariam aqui, caso tivesse tido tempo ou disposição para assisti-los até esta data (como Days, The Women Who Run, City Hall, Não Haverá Mais Noite etc).

Por ora, deixo aqui meus singelos e imperfeitos votos. Espero que gostem.

Curtas

60. Eu Interior (Mohammad Hormozi, 2019)
Tratado da simplicidade.

59. Construção (Leonardo da Rosa, 2020)
Subverter conceitos.

58. A Mulher Que Sou (Nathália Tereza, 2020)
Melancolia em um copo de cerveja.

57. Algo-Rythim (Manu Luksch, 2019)
Globo repórter dirigido por Phill Solomon.

56. Telas de Shanzhai (Paul Haintz, 2019)
Encontros e desencontros.

55. Vai Passar (Cristina Amaral, 2020)
O valor daquilo que é transitório.

54. República (Grace Passô, 2020)
Brasil, 1500.

53. Movimento (Gabriel Martins, 2020)
A vida: tão bela quanto passageira

52. O Que Há Em Ti (Carlos Adriano, 2020)
Passado, presente, futuro.

51. Para Todas as Moças (Castiel Vitorino Brasileiro, 2019)
Cinema brasileiro deve carregar sempre este filme debaixo do braço

50. Goldman V Silverman (Joshua e Benny Safdie, 2019)
Seis minutos e todo o cinema de classe dos Irmãos Safdie.

49. Obatala Film (Sebastian Widemann, 2019)
Deformações da imagem.

48. October Rumbles (Apichatpong Weerasethakul, 2020)
Apenas e tão somente a verdade que existe no ecrã.

47. 4 Bilhões de Infinitos (Marco Antônio Pereira, 2020)
Tratado de um mundo melhor.

46. Chão de Rua (Tomás Von Der Osten, 2020)
Da ruína à salvação: o formalismo.

45. Filme de Domingo (Lincoln Péricles, 2020)
Cinema de cura.

44. Memby (Rafael C. Parrode, 2020)
Ao infinito (da imagem) e além.

43. Cinema Contemporâneo (Felipe André Silva, 2019)
Aquilo que sobra dos destroços.

42. Coração Migrante (Leonardo Amaral e Roberto Cotta, 2020)
O amador a amar a coisa amada.

41. A França Contra Os Robôs (Jean Marie Straub, 2020)
Rascunhos para Jean-Luc Godard.

Longas

40. Inventing the Future (Isaiah Medina, 2020)
Primeiro cinema do futuro.

39. Zeroville (James Franco, 2019)
O assassinato da iconoclastia.

38. O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman, 2019)
O estado das coisas.

37. La Gomera (Corneliu Porumboiu, 2019)
Passagem e passageiro.

36. Palm Springs (Max Barbakow, 2020)
Cinema confort zone sem magoar ninguém. 

35. We Are Who We Are (Luca Guadagnino, 2020)
A cena da reza. E só.

34. The Farewell (Lulu Wang, 2018)
Sobre as distâncias melancólicas do capital.

33. Retrato de Uma Jovem em Chamas (Célinne Sciamma, 2019)
Tudo aquilo que o cinema deve à pintura.

32. Onde Está Você, Bernadette? (Richard Linklater, 2019)
Evolução natural do cinema de Linklater para a crise de meia idade.

31. A Cor Que Caiu do Espaço (Richard Stanley, 2020)
Nicolas Cage, conte comigo para tudo.

30. Breve Miragem do Sol (Erik Rocha, 2019)
Sobre vidas impossíveis e caminhos improváveis.

29. Sound of Metal (Darius Marder, 2019)
Absolutamente tudo que parece difícil fazer hoje em dia: diálogo, sentimento, câmera, personagem, construção narrativa. Sem ficar tremendo câmera ou tecer comentários sobre todas as condições mundanas. Filme frio, classudo, bastante simples. E com uma performance central sublime.

28. O Passageiro (Jaume Collet-Serra, 2018)
Bacurau dentro de um trem.

27. Nunca Raramente Às Vezes Sempre (Eliza Hitmann, 2020)
Dreyer fazendo cinema de fluxo.

26. Entre Facas e Segredos (Rian Johnson, 2019)
Agatha Christie para adultos.

25. O Oficial e o Espião (Roman Polanski, 2019)
Cinema é feito para ser simples: câmera, quadro, alguns rostos e muita picuinha política. Filmaço.

24. Freaky (Christopher Landon, 2020)
Cinema blockbuster encarnado em filme B. Vince Vaungh no corpo de uma colegial americana que na verdade é o corpo de um serial killer destemido é a melhor premissa que o entretenimento poderia inventar em um ano tão pesado. E talvez o quanto o leitor se interesse por essa premissa diga muito sobre este filme ser para ele ou não.

23. Private Life (Tamara Jenkins, 2018)
Triste epílogo entre Cassavetes e Douglas Sirk.

22. Sportin’ Life (Abel Ferrara, 2020)
Tradução = Traição. 

21. Dominó (Brian De Palma, 2019)
Hipóteses do exílio sobre futuro da imagem.

20. Atlantics (Mati Diop, 2019)
Encarnar fantasmas, destruir assombrações.

19. John Wick: Capítulo 3 – Parabellum (Chad Stahelski, 2019)
Cinema como falsificação.

18. Cabeça de Nêgo (Déo Cardoso, 2020)
Me interessa muito o movimento de tentar posicionar os filmes de hoje frente a uma história do cinema brasileiro, não como saudosismo, mas como corrente mesmo, como trajetória – influência, confluência, recusa, agito. Acho que é um gesto importante e que sinto bastante falta. Olhar um filme em relação ao seu cinema implica não só consumir cinema brasileiro como também entender que ele não diz respeito só ao que foi feito/visto/comentado nos últimos dez anos (algo que também não desqualifica essas linhas de produção). Onde quero chegar com isso? que Cabeça de Nêgo é acima de tudo muito curioso como um desenho de cinema que renega certas logísticas atuais (acho que a do “naturalismo” deve ser a mais corrente) para tentar deglutir uma influência lógica de estilo do Spike Lee anos 90 na sua própria configuração. É meio que o tipo de relação que Sganzerla tem com Welles: não é a cópia nem a ode, é a reescrita, uma fagulha pra acender outro fogo, nesse teto de terceiro mundo que nos assola tanto – e que impede que O Bandido da Luz Vermelha seja Cidadão Kane como também impede que Cabeça de Nêgo seja Do The Right Thing / Malcolm X / Jungle Fever. E graças a deus esses filmes não são isso. Por que eles são outras coisas, eles são mais. Eles são nossos. Parte da nossa história. De perdas e vacilos. E linda também justamente por isso.

17. Pajeú (Pedro Diógenes, 2020)
Sobre esquecer e ser esquecido, virar parede, frame, cinema.

16. The Beachbum (Harmony Korine, 2019)
Korine avança na direção totalmente oposta ao movimento do cinema. Enquanto ele se expande, o cineasta se retrai. Movimento é inércia, tempo é estado de imagem, e todo o resto é fumaça. 

15. Sertânia (Geraldo Sarno, 2020)
Algo como encontrar consciência em meio a um delírio e perceber que, na verdade, o delírio é muito mais racional/real que o cotidiano. Como entrar nas portas do céu para descobrir o inferno. É o Brasil. 2020, 2010, 1500. E mais um pouco. E ainda mais. Um portal, uma passagem. E “fica comigo no momento dessa passagem, meu mano. Já tá tudo clareando”.

14. Siberia (Abel Ferrara, 2020)
Ninguém filma uma viagem ao inferno como Ferrara e isso simplesmente se deve ao fato de que provavelmente ninguém visitou o inferno tantas vezes quanto o próprio Ferrara. 

13. Canto dos Ossos (Jorge Polo e Petrus de Bairros, 2020)
O delírio é a redenção dos aflitos (ou cinema de vampiros no terceiro mundo).

12. Dark Waters (Todd Haynes, 2019)
Filme de melodrama escondido em filme de terror ambiental e como tudo isso é muito mais Todd Haynes do que aparenta ser.

11. Entre Nós Talvez Estejam Multidões (Pedro Maia de Brito e Aiano Bemfica, 2020)
Sobre o corpo e a câmera serem um ocupante e vice-versa.

10. Vermelha (Getúlio Ribeiro, 2019)
O jardim de veredas que se bifurcam.

9. Da Five Bloods (Spike Lee, 2020)
O filme mais violento de Spike Lee desde Summer of Sam e provavelmente também um dos mais controversos e por isso mesmo mais esclarecedores. Lee segue sendo um dos maiores cronistas da América pós-Trump por que filma sempre sem medo dos rótulos em que seu cinema muitas vezes é inserido, revelando no ecrã todas as controvérsias e rupturas das quais artistas tanto temem tencionar quando estão criando. 

8. Tommaso (Abel Ferrara, 2020)
O self made de Abel Ferrara passeando pelo purgatório deve ser uma das coisas mais purificadoras que o cinema recente proporcionou. Mistura de flaneurie europeu com masculinidade em decadência na era do fim do autorismo. Filme que encerra muitos ciclos e escolhe abrir tantos outros para uma obra que está em franca evolução a medida que continua a ser talhada. É mais ou menos como sintetizar em 2h todo o peso das mãos e de um espírito tão cansado quanto disposto e certamente também pra lá de assombrado.

7. Jóias Brutas (Joshua e Benny Safdie, 2020)
Depois da toca do coelho.

6. É Rocha e Rio, Negro Léo (Paula Gaitán, 2019)
A palavra.

5. The King of Staten Island (Judd Apatow, 2020)
Judd Apatow segue como um dos maiores cronistas de uma juventude desajustada. Que esse filme exista já é um milagre – e que ele não tenha encontrado seu público ou uma distribuição certeira diz muito sobre o estado atual das coisas e sobre como seu realizador é encarado. Cinemascope feito com uma clareza e uma classe digna de poucos artesãos do cinema de comédia. 

4. Passou (Felipe André Silva, 2020)
Pequenos delitos passageiros. A vida como ela é, dentro de um quadradinho com uma câmera, cheio de perdas, paixão, ilusões e poesia. Esse deve ter sido o filme que mais me derrubou em 2020. 

3. O Caso Richard Jewell (Clint Eastwood, 2019)
Senso de justiça, cinema classe A.

2. An Unusual Summer (Kamal Aljafari, 2020)
O filme mais catártico de 2020. Sobre o descompasso de classes em uma guerra silenciosa, um retorno do documentário à estética do cotidiano e uma outra roupagem para a ideia de um cinema em câmeras de vigilância. Qualquer coisa menos que aterradora não serviria para classificar An Unusual Summer.

1. O Traidor (Marco Bellochio, 2019)
Meu coração pesa uma tonelada.

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