Descobertas – 90 filmes de 2020

Os únicos critérios foram: ter sido visto pela primeira vez em 2020 e ter sido feito antes de 2001. A lista não separa curtas de longas ou médias, nem origem de realizador ou data dos filmes. Um apanhado bem honesto com alguns comentários desse último ano de cinefilia. Alguns cineastas como Carpenter, De Palma, Eastwood, Hirszman ou Ferrara foram uma constante. Isso talvez possa incomodar quem gostaria de uma lista mais diversa, mas é a vida. Chamo “Descobertas” pelo simples fato de terem sido vistos pela primeira vez no ano que passou, mas quase que uma total maioria dos filmes já eram conhecidos por mim. Entre outros, algumas reais “descobertas” que valeram a pena.

Sobre a ordem: diz respeito a data, e não ao quanto gosto dos filmes. Os primeiros foram os últimos que assisti e assim sucessivamente. Mas certamente haverá uma predileção aos filmes dos cineastas mais vistos pelo quanto me encantam e encantaram com suas obras.

Eis a lista:

1 – Abá (Cristina Amaral, 1992)
Adoro este filme de Cristina Amaral, formaria uma sessão dupla incrível com o recente Vai Passar… (2020). Talvez uma síntese de como a montadora e cineasta retém em si uma capacidade de costurar ao mesmo tempo esperança com tristeza, desastre com bonança, humanidade com falência. E também uma boa dose de previsão de futuro, seja nas imagens de Vai Passar… ou nas temáticas corpóreas que rondam Abá.

2 – Meio-Dia (Helena Sohlberg, 1970)
Filme perdido da cineasta é uma jóia sobre o ato revolucionário e sobre um cinema de escolas. Quer dizer, o que pode a juventude nas escolas e nos espaços físicos dedicados ao saber (e ao dessaber). E também sobre como o cinema pode continuar sendo um signo – um jogo de vai-e-vem entre memórias e acepções que as imagens nos fundem. (Gostaria muito de vê-lo junto com Meteorango Kid em algum momento).

3 – Os Aventureiros do Bairro Proibido (John Carpenter, 1986)
Tenho a nítida sensação de que todos os filmes que vejo do Carpenter se tornam quase que automaticamente o melhor filme que já vi dele — e o melhor filme que já vi na vida. Com esse aqui não é diferente, mas o fato de surgir a cada segundo um personagem novo naquela dinâmica de “Grande Família vs. o mundo” e de Carpenter incorporar isso a uma ação realmente pastelona é um trunfo absurdo.

4 – Cool Hand Luke (Stuart Rosenberg, 1967)
Visto despretensiosamente em uma madrugada e diretamente para a lista de filmes do coração. Paul Newman fazendo aquele tipo de personagem que é completamente fadado ao sofrer e, ao mesmo tempo, também completamente fadado a emocionar e tocar o espectador. Daqueles cinemascope que fazem a vida valer a pena. E com umas ferramentas de montagem bastante particulares. Filme de cárcere e ao mesmo tempo jornada espiritual, talvez uma versão ideal de um projeto de Estranho no Ninho.

5 – Summer of Sam (Spike Lee, 1999)
Até hoje acho o filme mais violento do Spike Lee e também um dos que melhor reafirma uma capacidade do realizador de misturar contrastes extremos de classe, raça e política em cena sem tomar exatamente um lado ou partido. E o que é mais impressionante é como Lee transforma isso em verdadeira ficção, reflexão e ideologia. É um narrador imenso, e Summer of Sam deve fechar a década mais prolífera e especial de sua carreira.

6 – Black Ice (Stan Brakhage, 1994)
Essa é uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida e não posso dizer mais nada pelo simples fato de ter 3 minutos de duração e de palavras não serem capazes de descrever a experiência sensorial que é este filme de Brakhage.

7 – A Morte Pede Carona (Robert Harmon, 1986)
Jogo perfeito de luz e sombra. Exercício pleno de gênero. Poucas coisas são mais satisfatórias do que se entregar a premissa mais simples do mundo – um estranho assassino pedindo carona – e vê-la ser esgarçada ao extremo de helicópteros explodindo na estrada. Incrível. Não teria outra forma de descrever.

8 – All My Life (Bruce Baillie, 1966)
Pergunte à câmera: onde ir? A resposta: ao infinito. Onde terminaria o movimento de tilt up depois daquele azul infinito? Há infinito depois do infinito que é o azul? Há paraíso? Ou já estamos nele? Quer dizer, o que pode um plano? Tudo? Há um fim para um plano? Ou o plano também é o fim do infinito azul? Não seria o plano, talvez, tão infinito quanto ele?

9 – S. Bernardo (Leon Hirszman, 1972)
Acho que no fim das contas esse é o melhor filme de Hirszman porque sintetiza toda uma narratologia da tragédia de classes da forma mais poética e literária possível. Talvez seja o filme que o cinema brasileiro (ou a ideologia dos cinemanovistas) sempre quis fazer, mas agora devidamente apresentado – e representado – em uma certeza e arremedo estéticos impecáveis. Difícil cinema ficar mais bem talhado que isso.

10 – The Big Boss (Lo Wei, 1971)
Tem um momento nesse filme em que o Bruce Lee vê dezenas de operários de uma fábrica de gelo apanharem dos mestres de obra sem fazer nada. Até que alguém agarra o colar verde esmeralda que fica no seu pescoço, uma música temática com sabor de novela começa a tocar, e ele destrói todos os patrões na porrada. Por si só essa cena já valia os 90 minutos de filme, mas fico feliz em dizer que todo o restante é tão bom ou até melhor. História de tragédia com filme de Kung Fu. E o final é arrebatador. O operário vai à luta.

11 – Coração de Caçador (Clint Eastwood, 1990)
Clint Eastwood fazendo um exímio filme de John Ford – e que talvez seja o melhor filme de toda a brilhante carreira dele. Triste até o fundo da alma (como todo bom filme de Eastwood) e com um trabalho primoroso em torno de todo cinismo que sua figura de colonizador pode trazer.

12 – HonkyTonk Man (Clint Eastwood, 1982)
Balada musical do meio-oeste americano. Filme de pai e filho, de valores emprestados, saberes adquiridos e com aquela moral eastwoodiana de que o importante é amar aquilo que a gente adquire dos outros, mas sem nunca se apegar muito a isto porque a chance do mundo devorar o que ainda há de bom na vida é aterradoramente grande.

13 e 14 – Pânico (Wes Craven, 1996) e Pânico 2 (Wes Craven, 1997)
O primeiro é uma obra-prima absoluta. Mistura de cinema trash com filme B e o resultado é toda a farofa possível que a reunião de todos os elementos do horror podem gerar. O segundo é muito mais um exercício de refazer o que deu certo no primeiro acrescido de um certo comentário racial, mas que funciona muito mais por operar em um grau de cinismo tão grande que chega a ser engraçado.

15 – Double Team (Tsui Hark, 1997)
Explodir conceitos de cinema. Explodir corpos e estruturas. A melhor mistura possível que Tsui Hark poderia ter inventado foi Van Damme junto com um Dennis Rodman versão metaleiro underground com cabelo verde e cheio de cartas na manga. Eu acho bem difícil filmes de ação ficarem melhor que isso.

16 – A Mulher Que Inventou o Amor (Jean Garret, 1980)
É a ilusão projetada na câmera fotográfica que tampa a piroca do ator de telenovelas no quarto de Tallulah. A ilusão do pôster do homem desejado. A ilusão do espelho que reflete o casal perfeito. Depois que o espelho se quebra, a miragem termina. Voltamos a carne, porque o amor só se atinge com faca de açougueiro, estilhaçando bem lá no fundo das vísceras. Obra-prima.

17 – Impacto Profundo (Clint Eastwood, 1986)
Eastwood filmando Hitchcock com direito a falsa loura, espelho quebrado, ato final sombrio no parque de diversões e morte no carrossel. Quase um 007. Eastwood caçador de morte. Vida longa ao tragic happy end.

18 – Lilian M: Relatório Confidencial (Carlos Reichenbach, 1976)
Ainda longe de ser dos melhores filmes do Carlão mas com certeza um filmaço que já revelava um interesse inicial pela memória de certos personagens e por um tipo de cinema tão arrojado e godardiano que chega a ser pastelão. E é incrível como existem tantos filmes dentro de um mesmo filme.

19 – Manhunter (Michael Mann, 1986)
Pra muita gente esse é o melhor filme do Mann, o que eu discordo veementemente. Não por não ser um grande filme, mas por acreditar que ele tem algumas obras que coloco um pouco mais a frente. O que, em se tratando de Michael Mann, não quer dizer quase nada, porque exceto O Último dos Moicanos ele só tem obras-primas. Ou filmes que chegam muito perto disso. Basicamente, assista Manhunter e se delicie sobre como um cineasta pode ser o mais climático e anticlimático possível em um espaço de uma hora. Ah, e o final, lindo de morrer. A eterna fábula romântica de Michael Mann. Vale a visita.

20 – Clockers (Spike Lee, 1995)
Não acho tão bom quanto outros filmes do Lee da mesma época mas existe um interesse experimental que é bem latente no cineasta e que aqui se desvela bem mais que em outros filmes. As cenas do videogame que entrecortam um assassinato cometido por um menino de uns 7 ou 8 anos de idade é um dos comentários mais ácidos sobre violência que o cinema de Spike Lee já me fez experienciar.

21 – He Got Game (Spike Lee, 1999)
Nunca entendi ao certo o limiar que tenho com esse filme, se acho o melhor de Spike Lee ou se é simplesmente um processo encantatório gerado pela quantidade de cross-fades que fazem com que He Got Game parece quase que um vídeo álbum da trajetória de um pai encarcerado com seu filho astro do basquete. Uma vez uma amigo me disse que parecia se tratar de uma larga sinfonia de 2h, onde a música e a melancolia nunca paravam até que aquele ciclo de história terminasse. Acho que é mais ou menos por aí.

22 – A Noite do Desejo (Fauzi Mansur, 1972)
Mansur é quase como se fosse um Jesus Franco brasileiro – um operário do cinema, que pode muito bem variar as escolhas de gênero como alternar de uma obra-prima até um filme de última categoria. Nesse caso, talvez esse seja o maior de seus filmes, um exemplar da Boca do Lixo que reflete mais do que nunca o limiar entre prostituição, vida operária, violência policial e como o Brasil dos Anos 70 estava sempre fadado a perder. E a acordar sozinho depois de uma noite trágica e melancólica, tomando um cafézinho em uma mesa de bar.

23 – Moby Dick (John Huston, 1956)
Mitologia de um cinema clássico subvertido em cinema experimental. Aonde Huston consegue levar esse filme, um final catártico com Gregory Peck detrás de uma luz roxa tentando vencer a natureza e toda a mitologia marítima, é das coisas mais purificadoras que eu já pude experienciar. E também é incrível ver como o cinema clássico de Huston vai se transformando e dando cada vez mais uma guinada até o experimental muito bem vinda.

24 – Por Um Punhado de Dólares (Sergio Leone, 1964)
Nem de longe dos melhores filmes do Leone mas ainda assim um exercício de gênero spaghetti muito bem conduzido. Sem falar que o filme cresce muito na parte final, o que faz valer a visita.

25 – Profissão: Ladrão (Michael Mann, 1981)
James Caan como ladrão perdido entre o amor e as fissuras da vida fora da lei é a constante perfeita para delinear o cinema de Mann. Uma mistura entre o senso de dever e o senso de justiça atravessado pelo aparato estatal e quase sempre costurado ou invadido por uma tensão romântico que destrói qualquer uma das decisões racionais que seus personagens possam ter. Filmaço. Mesmo.

26 – O Dinheiro (Robert Bresson, 1983)
Último filme de Bresson e talvez o diamante mais bem lapidado de uma das filmografias mais incríveis e realmente relevantes da história da arte cinematográfica. Talvez um filme onde Bresson consegue finalmente levar ao poder do mínimo toda sua estratégia de cinema, a ponto de o final acabar apenas com um corte e sem mais nenhuma explicação, o que potencializa toda uma tese sobre como assistir a um filme e sobre o que esperar que todos estes signos e significações queiram exatamente dizer. Ou melhor, deixar de dizer.

27 – Das Tripas Coração (Ana Carolina, 1982)
Linguagem como anarquia, cinema onde tudo é delírio e o que não for logo tornar-se-á. Cacofonia. Homem-fobia. Desejo sem reparação. O sexo é o futuro.

28 – Uncle Josh At The Moving Picture Show (Edwin S. Porter, 1902)
Cinema. Revolta. Inocência. Raiva. Contra-cinema.

29 – Mar de Rosas (Ana Carolina, 1978)
Filme pialatiano de Ana Carolina mas que ao mesmo tempo é tão original que quase rejeita qualquer outra referenciação. Uma mistura barroca de códigos e metáforas e de um caos tão controlado em cena que desde a primeira obra da cineasta já revelavam um manancial de artimanhas que dificilmente seriam igualados no cinema brasileiro dali em diante.

30 – The Blackout (Abel Ferrara, 1997)
The Blackout  é um filme de busca, de procura, jamais um filme de encontros. Matthew Modine é o protagonista astro de cinema que estará atrás de sua quase futura esposa durante o filme todo, após descobrir que ela realizara um aborto. Explicar este fiapo de trama é para ajudar a entender que 1) The Blackout é muito mais sobre uma busca da imagem da femme idealizada por Modine que sobre ela propriamente; e 2) é muito mais sobre uma busca de Modine na própria imagem que dele é reproduzida nas diversas telas do filme do que sobre querer encontrar-se em meio a uma jornada de redenção.

31 – Alma Corsária (Carlos Reichenbach, 1992)
Toda a educação ideológica godardiana de Reichenbach reduzida ao cinema mais brasileiro possível. Um processo de inferno, mímesis e purgatório reduzido ao ambiente de uma pastelaria chamada Espiritual e que, ao mesmo tempo, é um testamento sobre uma geração que não só acreditava no delírio como também acreditava no cinema como forma de libertação e de potencialização desse mesmo delírio.

32 – Bethânia Bem De Perto (Julio Bressane e Lauro Escorel, 1966)
Mistura de cinema direto com cinema verdade. Bressane e Escorel tentando encontrar um filme que na verdade só se encontra quando Bethânia deseja que seja encontra. É quase como se fosse a cantora/atriz atestando a beleza de ser geminiana, mesmo que isso doa dizer.

33 – Pickpocket (Robert Bresson, 1956)
Pra mim é o filme mais dolorido de Bresson. Um jogo muito ágil de montagem e também talvez aquele que mais tenha algum apego ao personagem em cena. Ao mesmo tempo que é um filme absolutamente mordaz e trágico, e que só encontra o seu desfecho quando o personagem enfim acha aquilo que lhe é desejado e entende que para desfrutar do desejo é preciso estar condenado ao aparato do estado.

34 – ZeZero (Ozualdo Candeias, 1964)
Difícil localizar Zezero por ser um filme ao mesmo tempo tão caótico e tão particular. Talvez a carta máxima do que para Candeias signifique o poder do cinema e a maneira ruidosa e trágica com que o cineasta termina sua história diz muito sobre o lugar que o mundo também lhe legou. O que, como contraponto, talvez valha dizer que a sua habilidade de cineasta também diga muito sobre o que o cinema lhe legou após uma vida tão sofrida.

35 – Rainha Diaba (Antônio Carlos da Fontoura, 1974)
Filme gigantesco de um cinema que hoje em dia seria dito queer mas que por ter sido feito quase 50 anos atrás dá para chamar-se de vanguardista. Milton Gonçalves fazendo aquele que talvez seja o papel mais incrível de algum ator no cinema brasileiro e acompanhado de um Nelson Xavier pra lá de inspirado como um picareta médio brasileiro. Gosto de pensar que Adirley Queirós assistiu esse filme antes de fazer o final de Branco Sai Preto Fica.

36 – Ecos Caóticos (Jairo Ferreira, 1977)
Dialética e subversão, bagunça e disjunção. Jairo Ferreira entendia tão bem o conceito de caos e desordem que era um maestro em conseguir ordenar as desproporções milimetricamente. Um eco absolutamente audível.

37 – Meteorango Kid – O Herói Intergalático (André Luiz Oliveira, 1970)
Meteorango Kid deve ser o tratado maior de o que é um filme desleixado, bagunçado, a favor da bagunça, imerso na inércia. Serve para mostrar como o Brasil (e o cinema brasileiro) são um conjunta de forças e diretrizes que nunca se cruzam ou comunicam e que conseguem fundar-se apenas através da desordem e do caos. Mais que caos, o que rege o mundo aqui é um regime descompromissado de balanço e descaso, de excesso e defasagem, um dia perdido na vida de um vagabundo maconheiro e a importância de ter certeza que isso é mais reacionário que nunca é como saber que o nosso cinema nasceu para nunca sair do lugar e simplesmente fazê-lo é quebrar com essa condição fundamental.

38  e 39 – Kyrie Ou O Início do Caos (Débora Waldmann, 1998) e Noite Final Menos Cinco Minutos (Débora Waldmann, 1994)
Misto de mistério com histeria. Metáfora e metamorfose narrativa bem diante dos olhos da mise-en-scéne. A habilidade de Waldmann de se localizar no espaço narrativo diante de uma lógica lacunar é quase absurda. Prefiro não falar mais nada pois gostaria muito que o leitor descobrisse devidamente o que Débora Waldmann deixou ao cinema brasileiro em tão pouco tempo. Ambos os filmes disponíveis no YouTube, até onde me lembro.

40 – The Ambulance (Larry Cohen, 1990)
Funciona muito bem como alegoria de um estado paranóico constante, onde cada cargo social tem um estigma muito subversivo, duvidoso e incompetente, retirado ipsis literis de uma história de comic books. Esse é um filme perfeito pros EUA pós Guerra Fria por que decalca a sociedade nessa margem histriônica de heroísmo fajuto e maníaco obsessiva. Acho engraçado que os anos 90 são considerados os piores anos dos quadrinhos de heróis e esse filme tem tudo a ver com isso. Só que o gênio do Cohen sempre anda nessa linha tênue da tragicomédia do ridículo pra desembocar num filme completamente labiríntico e excessivo. No fim das contas, quando a ordem social cumpre seu papel é surpreendente. Por isso mesmo aquele final é tão maravilhoso.

41 – The Driver (Walter Hill, 1976)
Filme enérgico e muito seco de Hill, que não chega exatamente a ser um dos melhores da sua obra muito mais pelo mérito de seus outros filmes que por demérito de The Driver. É uma versão orginal e decente do filme de Refn e que também dá a ver todo um estado de América setentista e da falência tanto do trabalho quanto da moral dos sujeitos. Parece ridículo dizer, mas dava uma bela sessão dupla com Taxi Driver.

42 – Dias de Trovão (Tony Scott, 1990)
Talvez a guinada da carreira de Scott diante de um cinema verdadeiramente mais experimental, ainda que cheio de convenções certeiras. Longe de ser um filme de Hawks sobre Le Mans mas um exercício de ultraromance bem a cara de Scott e que ressalta as suas melhores habilidades de cineasta em filmar emoção e clímax como poucos. E com um cinemascope de cair o queixo.

43 – The Funhouse (Tobe Hooper, 1981)
Hooper migrando para uma estética muito seca e muito descrente em toda e qualquer capacidade do ser-humano de se redimir. Filme bastante cruel e também bastante único, onde o cineasta não presta muito carinho por quase nada em cena, e que por isso mesmo, quando as luzes explodem e o clímax aparece, se torna realmente recompensador.

44 – Gremlins (Joe Dante, 1984)
Adoro a capacidade de Dante de esgarçar a premissa de Gremlins até a última potência e fazer disso uma ferramenta de horror fabulosa. Dava uma sessão dupla incrível com Os Aventureiros do Bairro Proibido (ou até com A Bruma).

45 – Síndrome de Caim (Brian De Palma, 1992)
Obra-prima monumental. De Palma na última potência de seu cinema e chegando ao limiar máximo de sua lógica de estudo entre imagem, personalidade, psicologia, homens e cinema.

46 – Crash (David Cronenberg, 1996)
Aquele espacinho que divide a loucura do desejo.

47 – Fuga de Los Angeles (John Carpenter, 1996)
Entender 50 anos de Estados Unidos e de cinema. Carpenter provando que o subtexto é uma trincheira da subversão e da criatividade. Kurt Russel salvando o mundo em cima de uma prancha em uma onda gigantesca. Amor à primeira vista.

48 – Near Dark (Kathryn Bigelow, 1987)
Night moves.

49 – Pecados de Guerra (Brian De Palma, 1988)
Nem de longe dos melhores filmes do cineasta, mas interessante principalmente pelos gestos de montagem e pelo comentário político mordaz. Talvez o filme mais pesado da sua filmografia.


50 – Horas de Desespero (Michael Cimino, 1990)
Não sou tão fã quanto a maioria das pessoas, mas acho um belo exercício de suspensão da crença e do acaso em apenas 2h de duração.

51 – Príncipe das Trevas (John Carpenter, 1987)
Carpenter meets o labirinto de Jorge Luis Borges e transforma isso em tensão, ação e cinema de primeira linha.

52 – Meet Me At St. Louis (Vincente Minelli, 1941)
A cena da menininha com a barra de chocolate no início do filme já vale toda a visita. Até pra alguém muito pouco adepto a musicais como eu.

53 – As Patricinhas de Beverly Hills (Amy Hackerling, 1995)
Sem isso aqui a vida não tem graça.

54 – The Last American Virgin (Boaz Davidson, 1982)
Filme de corno dói muito. Mas na verdade é bem curioso como é também um filme de espelhos e de falência da juventude. Muito mais violento e dolorido do que se pode imaginar. Golpe baixo mesmo.

56 – Frenesi (Alfred Hitchcock, 1976)
Existe um momento aqui, um plano, uma sequência, que são a aura do cinema da parcela mais subversiva do autorismo de Hitchcock. O resto, enfim, brilhante, como de costume, mas parte de um diamante já muito bem lapidado. Agora… a sequência dos sacos de batata é algo único. É a potencialidade de tornar aquilo que seria mcguffin em metonímia: o alfinete que o assassino da gravata vai procurar dentro de um cadáver enfiado em um saco de batatas representa como a morte e a passagem são simbolos da filmografia de Hitchcock, de seu projeto muito bem sucedido de cinema. O cadáver que agarra o alfinete, eterniza o gesto de morte que o assassino trava ao aniquilar sua vítima. Ali, naquele instante, é como se aqueles dedos já podres tentassem, em uma última chance, agarrar o fantasma da morte em suas mãos, continuar a propagar-lhe.

57 – Vampiros (John Carpenter, 1998)
Acho que é meu Carpenter favorito. E isso já diz muito. Come on, Padre, let’s kill some vampires.

58 – As Pontes de Madinson (Clint Eastwood, 1995)
Como tudo na carreira do cineasta, o amor descamba na dor quase que na mesma medida em que as lágrimas descambam em nossos rostos.

59 – True Crime (Clint Eastwood, 1997)
Inacreditável. Poder narrativo de encontro a uma justiça do indivíduo que Eastwood sempre buscou em seu cinema elevado ao último grau. A conferir a último cena do filme para absorver isto devidamente.

60 – Trama Macabra (Alfred Hitchcock, 1976)
Último filme de Hitchcock e também um dos mais divertidos de sua carreira. Vai-e-vem em uma jornada sombria de condenação e que relembra muitos dos subtextos do cineasta que variam entre uma crença no misticismo, na permanência da morte e no destino dos caminhos errados.

61 – Surfistas Nazistas Devem Morrer (Peter George, 1987)
O MUBI ter disponibilizado uma retrospectiva da TROMA neste ano foi um dos maiores presentes que a cinefilia poderia receber. E Surfistas Nazistas Devem Morrer talvez seja o meu filme preferido de toda a filmografia do grupo. Bastante desengonçado, antifilosófico, com um ar pesado de cinema barato e muito honesto por todos esses motivos.

62 – Vestida Para Matar (Brian De Palma, 1980)
Não se fazem mais filmes como isto aqui.

63 – Cure (Kiyoshi Kurosawa, 1997)
A fábula interminável do Outro. Kurosawa reduz o cinema às suas convenções e evocações estéticas unicamente, tal qual os grandes artesões da era muda (Murnau, Lang, Stroheim). São dois ou três corpos, uma configuração de 3 ou 4 planos no máximo e tudo o que a metafísica do fora de campo e o horror do invisível no quadro – filmar o vento (o balanço das cortinas), o mar e as ondas – podem oferecer reduzidos à uma espécie de arquitetura de mundo sombrio. Tudo à nossa volta nos retumba.

64 – O Homem Que Sabia Demais (Alfred Hitchcock, 1956)
Pairar e planar na imensidão dos mistérios. Sobre como o afeto é definitivo pra concepção das imagens. Ah, James Stewart, que saudade.


65 – Um Mundo Perfeito (Clint Eastwood, 1993)
Precisa descrever? Mesmo?

66 – Cortina Rasgada (Alfred Hitchcock, 1966)
Acho engraçado como tudo por detrás desse filme deu errado e acho que um pouco disso também se revela na tela. Muito longe daquilo que o cineasta imaginava mas também com alguns belos lampejos de como Alfred Hitchcock pode costurar uma cena em um estado de suspensão com uma maestria muito tenaz.

67 – Zefiro Torna (Jonas Mekas, 1992)
His using his own life to make art. To make his art.

68 – God’s Angry Man (Werner Herzog, 1980)
O Silas Malafaia de Herzog

70 – The Warriors (Walter Hill, 1979)
Talvez o melhor filme já inventado. You The Warriors are cool people. “We are the best”.

71 – Nelson Cavaquinho (Leon Hirszman, 1969)
Hirszman artesão da arte de filmar a vida, a música, a condição social do Brasil e toda a sua tragédia em pouquíssimos planos e minutos.

72 – Tim Maia (Flávio Tambellini, 1987)
É a melhor sketch do cinema brasileiro. Talvez tudo que atormentasse o artista reduzido em um projeto de filme engraçadíssimo mas que, aos poucos, também se torna muito doloros por percebermos o quanto é fatal e inevitável lidar com as dores e alegrias de Tim Maia sem saber separar uma da outra.

73 – Point Break (Kathryn Bigelow, 1991)
They are ghosts. Bigelow mestra absoluta em controlar a ação em um grau narrativo de suspensão muito acima da realidade e transformar isso em um quase romance gay. Lindo.

74 – Jean-Marie Straub and Danièle Huillet at Work on a Film Based on Franz Kafka’s Amerika (Harun Farocki, 1983)
Aula de documentário, aula de cinema, aula de história.

75 – Uma Mulher é Uma Mulher (Jean-Luc Godard, 1961)
De corte em corte, o amor vai em crise.

76 – Je Vous Salue, Sarajevo (Jean-Luc Godard, 1993)
O mundo só precisa de dois minutos para ser descoberto. Godard é tão enorme.

77 – O Rei de Nova York (Abel Ferrara, 1990)
Eu não preciso da eternidade. Cidade e submundos divididos em um mesmo fade e em um mesmo espelho, todos concentrados nos olhos frios e inertes de Christopher Walken. Filme de vampiro.

78 – Os Invasores de Corpos (Abel Ferrara, 1993)
Um filme nas sombras.

79 e 80 – Viver e Morrer em Los Angeles (William Friedkin, 1985) e Cruising (William Friedkin, 1980)
Ninguém filma corpos em movimento como Friedkin e talvez também ninguém seja capaz de filmar uma ação ao mesmo tempo tão estrondosa e chocante como o mesmo. 


81 – Os Chefões (Abel Ferrara, 1996)
Filme de drama. Ferrara em um momento não só de funeral de sua carreira – a separação do roteirista Nicholas St. John, mas também encerrando e encenando um de seus filmes mais classudos. Muito simples, escuro, atmosférico e devidamente cruel em seu desfecho.

82 – Os Pássaros (Alfred Hitchcock, 1963)
O homem só vence a natureza quando se reconcilia na célula-matter que é o seio da estrutura familiar: um homem, uma mulher, uma criança. Uma família. O início de uma civilização. O mal não tem rosto, e sua maior recompensa é a lembrança de que para vence-lo precisamos reconstituir o que de mais primordial a sociedade constitui, o matrimônio e a paixão. O elo.

83 – Olhar e Sensação (Carlos Reichenbach, 1994)
O olho de deus rege o mundo.

84 – Brasil (Rogério Sganzerla, 1981)
O meu brazil brazileiro, terra de samba e pandeiro – e estran(ho)geiro)

85 – The Big Shave (Martin Scorsese, 1967)
Abolir a repetição neorrealista da tragédia e torná-la um estilo de imagem clássica de glamour. A metacrítica ao estado americano é um ato de repetição do próprio suicídio.

86 – The Apartment (Billy Wilder, 1960)
Jack Lemmon, como sofre.

87 – Missão: Marte (Brian De Palma, 1999)
Filme de amor do De Palma.

88 – O Som da Terra a Tremer (Rita Azevedo Gomes, 1991)
Meu coração é um pedaço microscópico de areia atirado ao ar. Arrebatador e brutal na mesma medida em que é apaixonante.

89 – Dublê de Corpo (Brian De Palma, 1984)
Filme feitiço, filme fantasia.

90 – A Força Das Coisas (Alain Guiraudie, 1998)
Dedicado a todos os vagabundos. Guiraudie deveria morar no coração de qualquer realizador, escritor, artista ou ser-humano que se preze.

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