Ostinato, um pós escrito (ou como os dedos balançam pelo ar) | Tiradentes #2

Reescrevo estas linhas pela terceira ou quarta vez até encontrar uma versão definitiva. Procuro no tato com a palavra achar o tom mais apropriado entre o que pretendo dizer e o que consigo dizer. Divido este espaço de texto com todas as vozes que habitam minha casa e interrompem o ensejo de silêncio que preconizo para efetuar a escrita. O pulular das hélices soltas de um ventilador barato aliviam a luz do sol que bate direto em minhas costas e ajudam a preencher o ambiente com um som rasante que faz com que eu não sinta-me inteiramente sozinho. Agora, escrevo como quem não mais reescreve, e procuro enxergar somente a linha que virá depois desta que já fora escrita, agora e neste momento. Este texto pode ser considerado um manuscrito ou um pós-escrito pois tudo que virá agora será dito somente depois destas linhas. Não farei coro algum às normas do português que possa ter deixado pelo caminho até aqui e que possivelmente venham à tona até o último dos pontos finais.

Alguém abre a porta enquanto bato com os dedos no teclado, confirmando minha indubitável capacidade de desconcentração. A dispersão é um mal contínuo, não é um intervalo. O intervalo é o foco, é o escrito definitivo, a música tolhida. A dispersão é o improviso, aquilo que for possível e feito na medida do possível. Comento sobre meu processo, mas poderia estar comentando sobre os filmes recentes feitos por Maria Paula Gaitán, homenageada na edição vigente da Mostra de Cinema de Tiradentes. Desde que fui arremetido com a experiência de assistir É Rocha e Rio, Negro Leo permaneço atento às coisas que Paula tem a dizer através de seus filmes. Permaneço também atônito, desfocado, intrigado, conflituoso. Até porque, a bem da verdade, quem “diz algo” raras vezes é a cineasta. Em determinado momento de Ostinato, Paula fala sobre estar se aproximando cada vez mais da música e cada vez menos da palavra. Nisso, Ostinato é sintomático. Se tem algo que me chama a atenção de pronto é como Arrigo Barnabé parece despreparado para expressar-se por palavras. Pelo menos, diante da mira de uma câmera que espera o tempo todo para enquadrá-lo, espera o tempo todo por aquilo que o personagem tem a dizer.

Se notarmos com atenção o primeiro terço do filme, iremos perceber como Arrigo toca o piano, ou, melhor, como Arrigo toca no piano. A mão desliza nas teclas como se cada uma das notas que toca fosse legível e capaz de ser materializada. É como se dissesse: preste atenção no que eu digo. E, na hora de falar, soltasse uma composição. Eu fiz tal música de tal jeito, diz Barnabé. E toca o instrumento. Quer dizer, não há outra maneira de falar. Não parece haver. O que é mais impressionante é como os dedos do cantor procuram incessantemente o instrumento, como se não houvesse outra maneira de verbalizar um sentimento. Eis ali a fuga, o confronto que a câmera de Gaitán tanto procura. Eis o conflito.

E o mais interessante é que Paula Gaitán sempre vai em busca desse interstício, desse modus operandi que visa a particularidade da expressão do sujeito. Se em É Rocha e Rio, o cantor Negro Leo falava, falava e falava, aqui Barnabé hesita, pensa, coça a cabeça, exibe os dentes amarelados e… toca no piano. Vai falando com o piano, pelo piano, através do piano. Confesso que há um quê de decepção nisso pois parece uma evidência, um fato que emerge do calor da hora de se fazer um filme, aquela impossibilidade de se retirar da entrevista com Barnabé o que, por exemplo, se busca retirar na maioria dos documentários convencionais: uma fala mais concisa, mais determinada. Tenho um certo receio quanto a como isso se dá em Ostinato, como se organizam os planos de Barnabé ensaiando e falando sobre teoria musical escorado em prateleiras de livros. Pois o que talvez haja de mais rico no filme seja mesmo o valor que tem a incapacidade do músico em conseguir se expressar diretamente em relação ao que se planeja. 

A conversa sobre escatologia, por exemplo, que desde sexta-feira, quando o filme estreou, foi bastante comentada. Eis o momento definitivo desse frisson, dessa estaca que acomete Barnabé quando mirado pela câmera. Justamente porque o músico não encontra uma definição precisa sobre o que é escatologia, sobre o que quer dizer com retrocesso e revolução ou sobre a decadência do gosto artístico. Acuado, ele procura uma saída com os dedos, toca notas musicais suspensas no ar. Suas mãos simbolizam o seu estado mental, sua condição definitiva de personagem: é apenas através do encontro delas com algum instrumento que será possível achar a sintonia, o conforto, e assim comprovar a posição em que Barnabé mais se deleita, a do ouvinte. Mas eis que surge uma inversão nos papéis do filme, e Arrigo mesmo passa a perguntar coisas para Paula Gaitán. E enquanto a cineasta fala e o músico escuta, um poema declamado interrompe o que de mais rico Ostinato poderia oferecer. O conflito estabelecido pela incomunicabilidade entre quem filma e quem é filmado, entre quem fala por música e quem fala por palavras, imagens e colagens. E é este pequeno trecho, este pequeno desvio, esta interrupção que nem de perto chacoalha o estado da cena, que prescreve uma incapacidade de filmar a mudez, de filmar um ouvinte, alguém que não recorre às palavras, mas que poderia oferecer um plano magistral ao cintilar os dedos no vento como quem atesta: eu de fato não sei o que dizer, mas, se me deixasse tocar o piano, tenho certeza que diria muitas coisas sobre isto. 

Filme visto na cobertura da 24a Mostra de Cinema de Tiradentes
Por Rubens Fabricio Anzolin

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