O mundo dentro do mundo | Tiradentes #3

O que há de mais belo em Oráculo (Melissa Dullius e Gustavo Jahn, 2021) é uma ideia fundamentalmente borgeana de que o centro do mundo é… o próprio mundo. De que tanto a vida quanto a narrativa são senão um espelho que reflete outros espelhos, em uma relação ad infinitum. Vou tentar explicar um pouco mais estas linhas.

Sobre o mundo dentro do mundo: Oráculo começa e termina com planos da água do mar se chocando nas pedras, uma força ruidosa e reiterada pelo desenho do som que garantem ao filme um movimento cíclico. Tudo se encerra em si mesmo. Nada se cria e nem se perde, o mundo unicamente se transforma: assim como a luz do plano final, que migra do céu anil para o azul claro. Cinema como mutação, que é a mesma coisa ao mesmo tempo que já passou a ser outra.

Além disso, a ideia de um filme em sete cortes (ou oito planos, que seja). É muito provável que exista uma conjugação destes planos que preze por um mínimo fio narrativo, ainda que este aparente ser invisível. Primeiro, um homem e uma mulher se separam entre as pedras da praia, não sabemos quem são exatamente, mas aqueles corpos, de alguma maneira, são familiares um para o outro. Depois, um outro homem já bem mais velho caminha por uma ponte durante um longo período. Em meio ao caminhar, narra uma lembrança ocorrida em 2013, seu caminho ao consultório. Será o homem mais velho este mesmo homem que se regurgitava entre as pedras? Há ainda um outro plano bastante particular, que é quando o mesmo rapaz do primeiro plano aparece saindo do mar, entre as ondas. Existe a possibilidade de uma inversão narrativa, de um filme fractal. De, no duro, estes três homens serem o mesmo sujeito em diferentes épocas e ocasiões. Mas há ainda outra ocasião, que independe da narrativa: destes três homens serem pessoas diferentes, e atravessarem, ao redor do filme, o mesmo sentimento, uma mesma tensão que os interliga a estas passagens melancólicas pelo mar. Se estes sujeitos não são, em si, o mesmo sujeito, são no mínimo interligados por uma mesma energia da natureza que os acomete até estes espaços. Já que, na lógica do tal Oráculo de Dullius e Jahn, todos são todos ao mesmo tempo que são um só. Espelhos que se encerram em si mesmos.

Todavia, nenhum destes planos encerra em si mesmo a força de um mundo que se concentra na força de seu próprio reflexo quanto a imagem da garota sentada na praia, logo depois da cena do violão (das coisas mais monumentais que vi no cinema brasileiro recente, inclusive). Primeiro, vemos o rosto já conhecido acompanhado pela brisa da maré. Este rosto se afasta do quadro e chega até um momento de desfoque da câmera, permanece no limbo. Depois, outro corpo chega até a posição da garota, com as mesmas vestes. Agora, é uma mulher mais alta, mais velha, mais “encorpada”. A sensação é de que aquela menina que cantava o hit melancólico no quarto agora, num passe de mágica, de transmutação do tempo, fuma um cigarro em frente ao mar. Alguma coisa como se o plano encerrasse em si 20 ou 30 anos em 2 minutos.

Mas é importante notar que a lógica destes procedimentos efetuados por Dullius e Jahn não carecem de uma racionalidade. Quer dizer, se a ideia central aqui é a da transformação, da permanência no espaço, da mutabilidade, nada mais certeiro que uma mudança tão brusca em um espaço tão minguado de tempo. Por isso que Oráculo reafirma em si uma ideia fundamental de que a natureza das coisas permanece perene e eterna, já que, mesmo que os rostos do quadro mudem, compartilham entre si uma pulsão constante que é sempre regida por essa maré melancólica das praias de Santa Catarina. Mesmo que aqueles corpos jamais sejam uma versão adulta de si mesmos, uma passagem de tempo, serão sempre eles reconectados e reconfigurados através de uma mesma energia que emerge diretamente da maré e que, quase que por magnetismo, atravessa as suas sensações por meio da intervenção da natureza. O mundo se encerra sempre no mundo, frente a frente com seus próprios espelhos. Pois, se os sujeitos não compartilham um mesmo corpo, refletem cada um no outro – naquela conjugação de planos que são quase irmãos, complementares – o mesmo sentimento de deslumbre e impotência diante do som da terra a tremer.

Filme visto na cobertura da 24a Mostra de Cinema de Tiradentes
Por Rubens Fabricio Anzolin

Um comentário sobre “O mundo dentro do mundo | Tiradentes #3

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s