Notas sobre o impasse

Entre Terence Dixon e James Baldwin existe um impasse verbal incontornável. Enquanto o cineasta busca um norte para seu filme, o personagem rasga caminho pelo pensamento. Há também um descompasso latente, resultado do descontrole. Se Dixon vai à procura de seu raciocínio, a efervescência oral e gesticular do escritor o impede de alcançá-lo. Caso Dixon procure uma configuração para o personagem, o mesmo faz questão de desconfigurá-la antes mesmo que ela comece. Meeting The Man é sobre esse desarranjo, sobre o descontrole de quem é filmado diante de quem filma. Uma espécie de jogo em que o time já entra em campo derrotado, onde nunca houve e nem haverá qualquer possibilidade de aquinhoamento entre documentarista e documentado. Se um deles cortar para a direita, o outro já terá realizado a finta e estará na cara do gol. É nesse sentido que se pode conjecturar que entre estes dois sujeitos, o que segura a câmera e o que olha para ela, não existirá chance de vitória, o resultado já é certo. A questão mesmo é saber como perder.

No entanto, diante de tamanho impasse, é preciso dizer que qualquer golpe no adversário é lucro, visto que a derrota é coisa concreta. Muito além do sentido literal desses termos, quase que irrelevantes, o que chama mesmo a atenção é o desenho do jogo. E há poucas coisas tão reveladoras sobre o tal do jogo quanto Meeting The Man. Pois esse é um dos raros filmes que desdobram com maestria um questionamento que atravessa o processo do cinema em documentário. Afinal, como filmar o outro, se é que isso se torna factível. A realidade é que não existe resposta para tal pergunta, de forma que este questionamento não é objetivo. Trata-se mais de uma imposição, de um impasse, de um conflito: como filmar o outro? E só haverá uma maneira de encontrar a hipótese ou a solução: filmando.

Diante do inconcebível universo que é James Baldwin, Terence Dixon recolhe-se tão somente a isto, ao ato de filmar, já crente que o resultado é antes de tudo contrário ao esperado, contrário ao retrato ou a figuração pré-concebida de seu personagem. Por isso mesmo recebemos o aviso prévio, logo que o filme inicia, de que o escritor americano entrou em desacordo com o próprio filme, e que tudo aquilo que venhamos a assistir é resultado não de uma partilha, mas de um combate. Contraste de contrários que nunca se encontram, ainda que Baldwin, de forma generosa ou enraivecida, procure informar a Dixon que ele jamais o entenderá, apesar de Baldwin compreender com muita clareza a natureza do cineasta.

Se há desrespeito entre um gesto e outro, entre o desejo de controlar o incontrolável por parte do cineasta, sou incapaz de estabelecer com certeza. Mas a verdade é que o que sobra do filme, o magnetismo que é imposto pelo sujeito controverso, que revela o sorriso e o espanto na mesma face da moeda, em um mesmo plano e segundo, por si só, já o suficiente para alimentar o que está no ecrã. Já que não é possível controlar aquilo que é figurativo, inalcançável, fazer de James Baldwin um objeto, então que se abrace o sujeito, seu movimentar estriônico, sua concepção de mundo pedestre, sem respostas prontas, sem formulações retóricas que não sejam senão aquelas que procuram outras dúvidas para além das perguntas.

No desequilíbrio de uma balança — que jamais foi capaz de suportar o peso do da ideia que concebeu Terence Dixon e nem mesmo dos parceiros de filme que Baldwin elenca — sobra a imagem do destroço, e toda a beleza que ela reluz. E se houve algum dia, por parte do realizador, a intenção de que Meeting The Man fosse efetivamente sobre o escritor James Baldwin, talvez a mesma tenha sido alcançada na medida em que o filme não é sobre Baldwin, mas sobre o conflito que resulta da impossibilidade de retratá-lo. Se não há bússola, então também não há norte, resta seguir aquela fala estridente, aquele pensamento que voa rápido como águia, e acompanhar a teimosia e o desarranjo até onde for possível. Pois ele certamente não levará à uma resposta sólida de como filmar o sujeito, mas deixará hipóteses latentes de como se constrói uma boa briga.

Por Rubens Fabricio Anzolin

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