Alguns cinemas brasileiros – Olhar de Cinema #03

O título “Olhares Brasil” sempre cativou-me porque o conceito que o atravessa automaticamente implica em algo que tem por fundamento a multiplicidade: tanto “olhares” quanto “Brasil” são gestos e atributos que não se constituem unicamente de um todo, isto é, não há somente um ou outro Brasil, da mesma forma que não se permite, por instinto e categoria, interpretar estes variados países (e cinemas) através de uma ótica particular e uníssona. Olhares Brasil, portanto, é a definição de um conceito que previamente exclui o ríspido e o objetivo de uma programação de cinema para, finalmente, concentrar-se não num  “todo”, mas sim em um exercício de “todo”, em uma possibilidade de agrupamento de variadas formas de produção e regimes estéticos ao redor do território. 

Os seis primeiros filmes deste programa possuem em comum uma variedade de registro quase basilar, uma diferenciação singular entre si que está sempre procurando ressignificar um sentido que se dá no próprio registro: ora esses filmes acessam a memória através da narração (Colmeia, de Maurício Chades), ora retratam uma figura artística particular, recorrendo ao processo de uma outra obra para formular-se em si (A Guerra de Michael, de Gregorio Gananian e Daniel Tagliari); em outros momentos, se opta pelo mínimo, aquilo que unicamente está no plano da imagem e que já basta para promover a singularidade da forma (Palavra Grande, de Manoela Ziggiatti); e por fim há também aqueles que se conceituam numa estética bem mais contemporâneo (As Vezes Que Não Estou Lá, de Dandara de Morais e Quando Chegar A Noite, Pise Devagar, de Gabriela Alcântara). De todos os citados, sobra ainda aquele que mais se desgruda dos outros pela maneira como conjuga seus planos e personagens, em um sopro atemporal a um programa que articula constantemente com as estéticas do contemporâneo: Beloss Carnavais, de Thiago B. Mendonça.

Há quem defenda que talvez este seja um filme demasiado velho para o cinema brasileiro de hoje, entretanto é impossível não dar vazão às pequenas belezas de uma narrativa costurada pela memória do não-visto e levada à cabo pela marcha fúnebre daqueles que ficam. Belos Carnavais nada mais é do que um filme-enterro, uma operação pelo luto daquilo que, como comentava antes, representa um dos grandes corações do Brasil, que é essa paixão familiar pela tradição do samba, que vai muito além de uma afeição pela canção ou pelo festejo mas que é também um sentido mais contíguo de vida, família, raiz e tradição. O próprio título, aliás, já entrega um pouco essa metáfora que está escondida na condição de uma mostra agrupada por sentidos plurais: como cinema, território, olhares e carnavais, a vida é também ciclo e passagem – e daí tem uma beleza ainda mais profunda nesse conceito, a ideia de que a morte é também firula, confeito e fantasia. 

Tudo em Belos Carnavais é uma espécie de tempo morno, de quadro-momento, de bálsamo. Aos poucos, é como se este filme estivesse definhando junto com o defunto. A câmera acompanha os visitantes do velório, se recolhe a registrar seus movimentos, a fixar-se no jogo de olhares. Enquanto o morto morre, a memória ressurge, e o cross-fade ajuda a celebrar um pouco esses tantos sujeitos que passaram pela vida do pequeno cadáver, agora já estanque. Dadinho, seu irmão, trajado devidamente com uma beca toda verde, é quem parece ainda teimar com o tempo. Chega cedo, solitário, não presta continência, senta quieto como se o lugar fosse seu. Aos poucos, o medo e a tristeza se diluem, o fio do tempo se esgarça e aquele sujeito já enfraquecido recorre ao único anseio que pode ser comum a todos os presentes, o canto. Dali em diante, Belos Carnavais passa de marcha-fúnebre para festa de luto, em um regime em que a melancolia reina e onde cada novo movimento é uma tentativa de deixar esse passado ir embora para celebrar em outro local. A montagem de Cristina Amaral, um soco, como bem comentou Roberto Cotta, ajuda no processo. Aglomerando estes planos detalhes já bastante lentos a um ritmo imprevisível de despedida, que vê unicamente na canção a forma de escoar a memória que está presa ao tempo. Afinal, é preciso deixar o outro ir, caso contrário o festejo é impossível. Belos Carnavais é um pouco isso também: é sobre um cinema brasiliero já tardio, esse do plano e da decupagem mais às claras, que nega o naturalismo em virtude da voz do ator, do olhar mais calculado, mas que ainda assim é capaz de celebrar o enterro como um fio de memória e de articular num ou noutro lance de sorte um dos filmes mais belos deste último Olhar de Cinema.

Por Rubens Fabricio Anzolin
Filmes visto na cobertura do 10° Olhar de Cinema.

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