Sem querer, querendo – Olhar de Cinema #04

Parece impressionante que o cinema brasileiro tenha a tendência de se redescobrir por meio do erro e não do acerto. Já aviso também que de forma alguma isso é algo pejorativo ou negativo, afinal, soa impossível que em um país cujo o setor cultural é constantemente esgoelado e descontinuado algo não surja por coincidência ou por uma necessidade contundente de afirmação, isso é, de se fazer cinema antes de tudo porque é preciso. Um cinema do possível, e não do provável. Pensava nisso sempre que assistia aos filmes que Sganzerla e Reichenbach fizeram nos anos 60, 70 e 80. Coisa que talvez tenha entendido e valorizado de forma mais sentimental quando acessei a obra de curtas de Aloysio Raulino ou quando finalmente descobri Humberto Mauro perdido em uma prateleira de DVD’s da faculdade. E ainda hoje percebo isso, aos prantos – e talvez até com mais recorrência – quando um coletivo como Alumbramento vira um cinema de cabeça para baixo, quando Adirley Queirós refunda um sentido político em A Cidade É Uma Só? (2011) ou quando Marcus Curvelo filma algo colossal como Mamata (2017), por exemplo. A mim, interessa pensar que essa ideia de reconfiguração das artimanhas de outros cinemas gringos adaptadas para cá é apenas um ponto inicial, capaz de revelar a ruína de uma estrutura mais bem formada de meios de produção: talvez (e digo talvez mesmo) porque fosse impossível filmar Pan-américa como se queria é que uma obra-prima como Hitler do Terceiro Mundo (José Agrippino de Paula, 1967) existe. Talvez porque nunca tenha vingado ou lucrado fazer um filme de super-herói brasileiro é que se pode vir a luz O Super Outro (Edgar Navarro, 1989) e Metorango Kid (André Luiz Oliveira, 1968). Mas isso tudo é um grande talvez. Talvez mesmo, eu nem tenha ou possa confirmar o que escrevo com exatidão. É mais algo que gosto de pensar. 

Por conta de todo esse legado do “erro”, aliás, é que se pode entender o motivo de um filme como O Sonho do Inútil (José Marques de Carvalho Jr., 2021) ter sido um grande sucesso dessa última edição do Olhar de Cinema, possivelmente por ser capaz de rememorar esse caráter acidental que constitui nosso cinema, essa evidência da ruína e do ruído. (E não, não quero – e nem pretendo – comparar esse ou qualquer outro filme com Sganzerla, Carlão e Humberto Mauro). Começo pensando na ideia de um cinema a baixíssimo custo, sem financiamento, feito de maneira solo, que se imbrica nas circunstâncias de uma gente e de um lugar, de uma história que existe e que é não apenas de um mas de outros tantos. Depois avalio o particular, que é a característica sentimental de cada um dos personagens de José Marques (sendo ele também uma dessas figuras). Poucos filmes brasileiros recentes talvez consigam captar com tanta dignidade esse lapso trágico da vida humana. Há quem diga que isso se dá pelo fator da intimidade, como há também quem pense que reside ali um novo projeto de Eduardo Coutinho. Nem tanto ao céu e nem tanto ao inferno. Na verdade há cinema, uma articulação bem voraz de cinema, que quando consegue enfim se desprende das amarras da montagem – da necessidade do arquivo para provar o “real” – é capaz de fazer rir e chorar da mesma forma pura que se sente no mundo. 

O grande vigor de O Sonho do Inútil é o fato de que é possível se estender aos seus personagens e acessá-los com dignidade, coisa sempre rara de se achar quando se pensa em quem escolhe filmar o outro. No filme José Marques, não se persegue nem se aprisiona com a câmera, se reparte. É como um túnel que refaz o período em que Douglas, Aluã, Daniel e Diego resolveram criar um canal de vídeos de humor para recuperar a essência trágica que reside no riso. Em meio à violência dos bairros, o desajuste da adolescência e a ronda inóspita da drogadição, o Canal do Inútil era a forma de se afugentar do mundo, de desbravar as políticas do cotidiano sem se adequar nem ao normal e nem ao concreto. Em suma, observar esse compilado um bocado íntimo de vídeos faz perceber que esses personagens representam, quase que por necessidade, um jeito lúdico de represar uma dor interior – como quem filma para rir se colocando em risco, sem medo de morrer por colocar fogo nas roupas e no cabelo por algumas centenas de visualizações. 

É nesse sentido que O Sonho do Inútil possui esse traço marcante, também porque lembra através da articulação da vida um gesto bastante áspero que se reproduz no real. De certa maneira, é um filme que não parece tão distante de A Vizinhança do Tigre (Affonso Uchôa, 2014), por exemplo, que no entorno de um mundo ruidoso e violento era capaz de extrair o riso pelo trejeito da fala, do espaço, da brincadeira que mais reconstitui uma realidade muitas vezes voraz que qualquer outra coisa. Mas que acima de tudo reconhece a dureza da vida, e entende que o lampejo de beleza pode, por vezes, ser absorvido no sincero retrato dela. É de filmes como esse que o Brasil também é feito, ora incompletos e imperfeitos, mas capazes de elevar seus personagens a um nível de humanidade bastante inconcebível. Afinal, a câmera sempre foi um objeto refratário, que não à toa por muitos anos lembrou coisas como uma arma ou uma mira. Por vezes, esse tal objeto consegue capturar uma breve sensação de carisma, de tempo ou de memória. O Sonho do Inútil, no que tem de melhor, é um lastro disso, capaz de fazer perdurar no peito a memória de quem se foi, o sabor do reencontro com a família e a incerteza cruel quanto ao futuro. O que sobra dos destroços.

Por Rubens Fabricio Anzolin
Filme visto na cobertura do 10° Olhar de Cinema  

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