No campo das paixões

No fim de tudo, há de restar um beijo. Este beijo poderia estar em um plano celeste composto por Douglas Sirk, por Fassbinder, por Murnau ou até por John Ford. Mas está em um plano de Lana Wachowski. Um plano de Matrix Resurrections. E devemos respeitar isso, seu desejo de sê-lo.

O ano é 2021 e se instaura pela internet um complexo (nem tão complexo) e corpulento (nem tão corpulento) debate sobre filmes de heróis e filmes de ação, filmes de multiplex e filmes de sétima arte. Ou Scorsese ou Marvel ou Tom Holland ou Pedro Almodóvar. Ufa. À história do cinema – que quero acreditar ainda ser (ou também ser) a história da estética – caberá resguardar um lugar menos significativo (suponho) para tal debate, e à ela também será necessário compartimentar um local especial para esta cena, para este beijo, para o passeio chuvoso de Neo e Trinity sob uma moto, perseguidos por todo o resto da população da Matrix. Enfim, o encontro célebre entre duas proposições de imagem que, quando já quase não sobram esperanças (e viva aos românticos), se encontram: Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss. Juntos e reunidos pela ênfase e pelo âmago daquilo que a paixão e o cinema (e a paixão pelo cinema, antes de tudo) podem oferecer.

Jacques Rancière escreveu um texto belíssimo onde precisa relembrar à todos que, antes de tudo, Vitalina Varela (Pedro Costa, 2019) era um filme de amor – menos da estirpe do documentário ficcional, do cinema híbrido contemporâneo, e muitos mais perto do modelo clássico narrativo, tradicional, inspirado nos mesmos cineastas que o formaram: Tourneur, Ford, Hitchcock, Renoir, Naruse. Com Lana Wachowski acontece a mesma coisa. Matrix Resurrections não tem nada de novo, muito menos de inovador. Há quem se engane em pensar que este é um filme do futuro, fruto dos tempos apressados, das demandas de ação e velocidade: este é, antes de tudo, um filme do passado, de um cinema do passado. Não é por acaso que Lana Wachowski recorre incessantemente às suas imagens pregressas, às cenas repetidas de seus filmes anteriores. Antes de querer nostalgia, a cineasta procura o reencontro: voltar de novo àquilo que já se amou, filmar de novo, registrar de novo, capturar uma última vez o espírito da paixão para que se possa seguir em frente.

A despeito de toda e qualquer dobra narrativa minimamente complexa que Matrix Resurrections parece ter, é preciso que se esclareça também que esse é um filme simples. Extremamente simples. Do início ao fim, importa unicamente que Neo encontre Trinity. Importa que eles conversem em um café ao fim da tarde, que seus olhos fixem um no outro dentro de um ferro velho, que suas mãos se abracem finalmente em meio a uma multidão que tenta desesperadamente mutilá-las. Que boa parte do público de Matrix, aliás, não esteja satisfeito que a cineasta se demore muito mais nesse romance do que em uma eventual cena de ação, diz muito mais sobre quem assiste a esse tipo de filme esperando algo em troca do que sobre o filme em si. Por isso reitero, nada aqui me parece jogada do acaso: que as máquinas aprisionem o casal em casulos, que uma horda de “non-player characters” os persiga tentando impedir que ambos estejam juntos, que um deus ex machina surja no fim do filme para resolver toda a trama. Novamente, tudo isso só se viabiliza porque factualmente nunca houve relevância em “toda a trama”. Da mesma forma que se é com Speed Racer (cuja trama me parece bem interessante, ademais), com A Viagem, com O Destino de Júpiter (filme memoravelmente cafona do início ao fim, justamente mais interessante por isso que por qualquer outro desenvolvimento meramente tecnicista).

É justamente pela soma incessante de fatores presentes no cinema de Lana Wachowski – que enfatizam dramática, estética e narrativamente a força do romance, do happy end, do encontro dos amantes, enfim – que não aparenta nenhuma estranheza o fato de o clímax de Matrix Resurrections andar de mãos dadas com um filme como Fim dos Tempos (2008), por exemplo, com os personagens a caírem dos céus igual mortos-vivos, tentando caçar o casal de protagonistas. Muito menos que as sequências de Trinity e Neo fugindo dos vermes à noite, em cima de uma moto, em um ambiente para lá de chuvoso e superlativo, relembre os melhores dias de Wong Kar-Wai, em filmes como Anjos Caídos (1995) ou Dias Selvagens (1990). Quando falei que Matrix Resurrections era um filme do passado não foi por mera pretensão teórica: tudo que aparece, quer estar ali: o encanto pelo herói perdido (Neo), o contraluz em câmera lenta dos cabelos de Keanu Reeves, a presença constante da história que já se contou e já se assistiu por diversas vezes, mas que necessitava ainda se consumar novamente. 

Como disse, todo o resto ficará para trás: as disputas do cinema, os desacordos do público, as demandas da indústria diante de cineastas como Lana Wachowski. Ficará para trás as discussões sobre as cenas de ação, sobre as continuidades, as novas e velhas trilogias. Não restará mais nada além do beijo, daquele beijo entre dois seres apaixonados. Daquele beijo que, hoje, foi filmado por Lana Wachowski, mas que ontem foi filmado por Fassbinder, por Sirk, por Ford. Por Shyamalan e por Kar Wai. E que não é um beijo novo, um beijo do futuro. Esse é um beijo de sempre, um beijo do passado. Um beijo do cinema.

Por Rubens Fabricio Anzolin

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