Até nunca mais – 50 filmes de 2021

Antes de começar, algumas certezas do ano de 2021: certamente, foi o mais difícil de uns tempos para cá. No que diz respeito ao assistir cinema e no que diz respeito à vida. Durante os últimos 12 meses, minha média de filmes decaiu imensamente, fruto (talvez) de um cansaço em relação ao resguardo, de um excesso de trabalho e de um certo desencanto com as imagens. Apesar disso, é verdade, preciso admitir que este ano foi muito mais frutífero no campo dos lançamentos em relação aos anos anteriores. Curioso perceber como há um número significativo de filmes feito pelas vozes mais interessantes do cinema recente: Kelly Reichardt, Paul W. S. Anderson, Lana Wachowski. Há também uma continuidade significativa de grandes mestres em idades avançadas, caso de Verhoeven, Schrader, Ferrara, Eastwood e Bressane. Em relação ao cinema brasileiro, possivelmente tenha feito algumas escolhas que não me parecem ter agradado tanto a outros colegas. Paciência. É bem possível que isso diga mais sobre meu ano de cinefilia, bem abaixo, que sobre qualquer filme em si. Também preciso citar ausências significativas, que certamente estariam nesta lista caso os tivesse assistido em tempo: From De Bakersfield para Mojave, Memoria, Roda da Fortuna, Drive My Car, In Front Of Your Face.

Por último, mas não menos importante, os critérios: filmes lançados entre 2019 e 2021 vistos pela primeira vez nos últimos 12 meses. A ordem é pessoal e intransferível. E possivelmente seria outra se eu redigisse essa lista novamente amanhã ou depois.

20 curtas-metragens (brasileiros e não-brasileiros)

50. O Mundo Mineral (Antoine Guerreiro do Divino Amor, 2020)
Imagens de delírio, imagens da vida real.

49. Sideral (Carlos Segundo, 2021)
Direto, reto, honesto.

48. Sem Título #7 – Rara (Carlos Adriano, 2020)
Haikai de memória e de amor.

47. Floresta Espírito (Clara Chroma, 2020)
Sobre a natureza experimental do cinema.

46. A Máquina Infernal (Francis Vogner dos Reis, 2021)
Um épico do apocalipse.

45. Palavra Grande (Manoela Ziggiatti, 2021)
Filmar é sobre isto.

44. Portugal Pequeno (Victor Quintanilha, 2020)
Storytelling à brasileira.

43. À Beira do Planeta Mãinha Soprou A Gente
Documento melancólico entre a solidão e o amor.

42. Todas as Rotas Noturnas Conduzem ao Alvorecer (Felipe André Silva, 2021)
Ana Martins Marques escreve um filme.

41. DisneyLoka 2093 (Erick Ricco, 2020)
Videogame do futuro.

40. Eu Te Amo, Bressan (Gabriel Borges, 2021)
Jean-Luc Godard se formando na Federal do Brasil nos anos 2010.

39. Modo Noturno (Calebe Lopes, 2020)
John Carpenter dirigindo Tio Boonmee.

38. Muriel (João Pedro Faro, 2021)
Um cataclisma nos ruídos do vídeo.

37. Haiku de Um Poeta Morto (Akira Kamiki, 2020)
O amor, sempre o amor.

36. Dez Conto (Bruno Maciel, 2021)
O futuro que existe é aqui.

35. A Escola É Nossa! (Othilia Balades, 2020)
Cinema de guerra, cinema de montagem.

34. Rua Ataléia (André Novais Oliveira, 2020)
Fantasmas parte II.

33. Forrando a Vastidão (Higor Gomes, 2021)
Jim Jarmusch na perifa de MG.

32. Belos Carnavais (Thiago B. Mendonça, 2021)
Um soco.

31. A Maldição do Planeta Live (Marcus Curvelo, 2021)
Eu sei que fracassei, eu tinha que avacalhar.

30 longas-metragens (brasileiros e não-brasileiros)

30. Ostinato (Paula Gaitán, 2021)
Tentativa e erro.

29. Rio Doce (Fellipe Fernandes, 2021)
A cena do aniversário.

28. Venom: Tempo de Carnificina (Andy Serkis, 2021)
Sinto muito se alguém não é capaz de se divertir com um titãnossauro gigantesco tendo uma crise de ego numa balada enquanto o mundo todo espera que ela seja sombrio e realista.

27. No Sudden Move (Steven Soderbergh, 2021)
Filme pra toda família.

26. Cena do Crime (Pedro Tavares, 2021)
Porumboiu filma o Rio de Janeiro.

25. Desaprender a Dormir (Gustavo Vinagre, 2021)
Na jugular do tédio.

24. Oráculo (Melissa Dullius e Gustavo Jahn, 2021)
Jorge Luis Borges filmando em película.

23. Mirador (Bruno Oliveira, 2019)
Estudo de personagem

22. A Mão de Deus (Paolo Sorrentino, 2021)
Se Maradona não for jogar no Napoli, eu me mato.

21. Godzilla vs Kong (Adam Wingard, 2021)
Adam Wingard jogando em casa.

20. The Velvet Underground (Todd Haynes, 2021)
Melodrama em imagens de arquivo.

19. Annette (Leos Carax, 2021)
Ensinando ao pós-moderno o que é contemporâneo.

18. 21 Bridges (Brian Kirk, 2019)
Honesto até a alma.

17. O Sonho do Inútil (José Marques de Carvalho Jr., 2021)
O melhor acidente do cinema vem direto do YouTube.

16. Madres Paralelas (Pedro Almodóvar, 2021)
Enterrar os nossos vivos.

15. Eu, Empresa (Marcus Curvelo, 2021)
Saber perder.

14. Introduction (Hong Sang Soo, 2020)
O torpor.

13. Vênus de Nyke (André Antônio, 2021)
Desafio estético brutal.

12. A Morte Habita A Noite (Eduardo Morotó, 2020)
Sobre os limites da dramaturgia.

11. Matrix: Resurrections (Lana Wachowski, 2021)
Por um cinema romântico.

10. Let Him Go (Thomas Bezucha)
Em um ano como 2021, um filme sobre deixar partir é praticamente imponderável. Chega a ser brilhante que alguém consiga filmar isso em um tempo tão atual, cujos códigos estéticos pedem cada vez mais o realismo ou um acontecimento giratório, brilhoso e constante. Na era onde tudo pede por atenção, um filme de velhos para velhos, que leva toda a dramaturgia na lentidão do tempo, é uma das surpresas mais retumbantes possíveis.

9. Cry Macho (Clint Eastwood, 2021)
Enterrar-se vivo. Há uma cena em Cry Macho em que Clint Eastwood deita ao pôr do sol, à beira da estrada, sem chão e sem paisagem capaz de segurar a metáfora de um nonagenário incansável. É preciso que ele suma novamente, que dance novamente, é preciso que ele morra para nascer de novo: Clint Eastwood vivendo seu coming of age, sua paixão infantil, seus gozos e delírios de jovem, mas ainda com a mesma velha e célebre carcaça de pistoleiro. Para colocar com louvor os pés na eternidade.

8. Capitu e o Capítulo (Julio Bressane, 2021)
A história da mancha. Melhor filme de Bressane em algum tempo (a considerar que os últimos filmes de Bressane são igualmente ótimos). O segredo de uma vida e de um castelo escondido ele todo nas paredes das casas de um casal em delírio e nas páginas putrefadas da literatura brasileira. Sobre ver-se em frente ao espelho para quebrar suas próprias imagens, juntar os cacos, remixar o próprio reflexo, gruda-lo novamente, construir um novo mosaico, filmar até morrer.

6 e 7. Zeros and Ones (Abel Ferrara, 2021) e The Card Counter (Paul Schrader, 2021)
Os dois filmes de horror do ano. Dois filmes quase irmãos, dois filmes malditos, sobre os escombros de uma nação e os escombros de uma estética. Dois cineastas que se reinventam diante do verve de suas referências primordias (para Schrader, Bresson; para Ferrara, Godard) para esgarçarem a um outro nível suas visões de mundo. Para Schrader e para Ferrara, a última redenção é o amor. Dois artistas que desacreditaram na vida durante uma obra inteira para, na velhice, encontrar na família e no amor causado pelo elo entre os amantes a única possibilidade de redenção diante de um mundo cada vez mais catártico e cruel.

5. Monster Hunter (Paul W.S. Anderson)
Cinema mudo. Paul W. S. Anderson é o grande artesão de ação de blockbuster do seu tempo porque entende como poucos os limites filosóficos do quadro e as proporções gigantescas das imagens. É capaz de encontrar um código humano e pessoal em meio a uma adaptação de video-game que conta basicamente com uma estrutura de dois atores, um mar de CGI e um gigantesco castelo de areia. Poucas coisas mais especiais que Milla Jovovich e Tony Jaa aprendendo a se comunicar em uma caverna noturna apenas através do olhar.

4. The Power Of The Dog (Jane Campion, 2021)
Instaurar a dúvida e privilegiar o gesto. Eu, que não sou grande fã de Jane Campion, fiquei imensamente surpreso com esse lançamento, ainda mais por ser oriundo da Netflix. Um cinema bem menor, calcado no gesto antes de tudo. A primeira parte soa mais como um grande engano, um grande arremedo daquilo que virá a seguir. E talvez esteja aí a graça da coisa: na hora de entregar, Campion me parece dar muito mais que o esperado. É como se houvesse uma guinada mortal na relação entre aqueles dois homens, que se equilibra num pêndulo muito sombrio entre amor, sexo, paixão e vingança.

3. First Cow (Kelly Reitchardt, 2020)
O tempo de ruminar. Kelly Reitchardt a revisitar o Velho-Oeste na tentativa de recuperar o que há de mais belo na relação entre os homens: a amizade. Sobre os ossos dos nossos mortos e sobre os tempos necessários para deixar o cinema decantar, chegar devagarinho, tomar um espaço na sala, apegar-se à mente, aos pulmões, ao coração. Um processo lento que quanto mais cresce mais aumenta dentro do peito.

2. Benedetta (Paul Verhoeven, 2021)
Batendo na porta dos grandes mestres. Benedetta, assim como os outros filmes de Verhoeven, é, numa estrutura basilar, um filme só: aquele que convoca todo o pecado e peso moral para dentro dos corpos, e dá a ver justamente neles a sujeira de um mundo. É nesse sentido que importa muito menos a relação sexual que existe entre as duas mulheres pagãs, Bartolomea e Benedetta, do que a pulsão corrosiva e dominadora que se estabelece não só entre uma e outra como entre todas as personagens do convento de Pescia. É menos sobre o grafismo do Jesus Cristo espadachim com vagina do que sobre essa personagem equilibrada em um desvio de caráter abrangente, cuja expectativa acerca dos atos nunca se justifica ou se reconhece com exatidão, mas sempre se espreita pelo olhar vulgar da câmera – similar a criança que descobre um novo segredo pela fechadura da porta, ou mesmo à abadessa ateia (Charlotte Rampling) que condena o sexo em detrimento da tortura.

1. Tempo (M. Night Shyamalan, 2021)
O código. Conheço poucos cineastas que filmam crianças como o Shyamalan. A câmera quase nos joelhos, olhando o mundo de baixo, encarando ele no face a face. Vi muita gente falando sobre Fim dos Tempos (2008), mas pra mim isso está mais perto de Dama na Água que qualquer outra coisa. Aquela codificação de mundo que é basicamente teórica: a museóloga que só conhece o passado, o segurador de vidas que pretende entender o futuro, o médico curador que na verdade é o portador da doença. Tudo está ali, como quase toda obra do Shyamalan. Mas que, no fim de tudo, recai sobre os mesmos mitos e paradigmas primeiros: Tempo é um filme sobre a comunicação, quase um The Birds revisitado, refazer na origem do mundo os caminhos para sobreviver ao futuro, sem redenção. Sobre reconstruir o universo somente quando se é capaz de ler novamente os códigos da infância (a carta dos sinais, pista para fuga, única coisa que não envelhece neste mundo, entregue por uma criança para outra criança). Além de imagem, muita imagem. Porque Shyamalan nunca teve medo de mostrar, e a beleza retumbante de seus filmes está no fato de que tudo que ele filma é embebedado pelo encantamento, pelo desejo, pela vontade a fórceps de exibir algo sabendo o que se quer visto. Um cinema iluminando, resplandecente, como a clareza absoluta dos corais e da água do mar.

Por Rubens Fabricio Anzolin

Um comentário em “Até nunca mais – 50 filmes de 2021

  1. Olá sou Bruno Maciel diretor de DEZ CONTO e fiquei bem feliz em ver nosso filme nessa lista, um forte abraço !!!
    meu instagram é @brunomaciel.dir passa por lá se quiser bater um papo sobre cinema de periferia

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