Uma mercadoria maldita

Recentemente, vi o último filme de Gastón Duprat (co-dirigido com Mariano Cohn). Chama-se Competição Oficial (2021), estrelado por Antonio Banderas e Penélope Cruz e exibido com pompas no último Festival de Veneza. Acho curioso como cada vez mais esse tipo de movimento é recorrente, como um cineasta latino-americano com uma linguagem minimamente acessível à grande massa é capaz de ser rapidamente importado ao estrablishment dos festivais gringos. São passos silenciosos dados pela indústria do cinema e que rapidamente consolidam um nome nem tão especial assim como um símbolo cinematográfico. Não que isso seja meramente um problema, e muito menos que os autores importados sejam definitivamente “os autores”, mas não deixa de ser curioso. Ou pelo menos previsível. Na prática, isto é, na qualidade dos filmes, isso implica em pouca coisa. O que já tinha valor permanecerá tendo valor, e aquilo que soava vazio vai passar a soar mais vazio ainda. Os únicos que ganham com isso são os produtores. E a publicidade, inimiga eterna do cinema. “A sobrevivência do cinema está hoje na capacidade de jogo que ele pode criar no interior de um sentimento geral de saturação em relação às imagens”. Serge Daney, nos Anos 70, sobre Cinema e Publicidade.

O que isso tudo tem a ver com o filme de Duprat e Cohn? De forma mais objetiva, nada; de forma indireta, tudo. Trata-se de um sintoma fundamental que se estende a Competição Oficial e a tantos outros filmes e obras de arte. Uma ideia de fundamentação narrativa que concerne não somente ao exagero cênico mas à transcrição de um modelo fabular simples, com pequenas pegadinhas. E aí, falo por mim, sem mais nem menos: eu odeio pegadinhas. Odeio as viradas de roteiro, odeio as coincidências narrativas, odeio a metalinguagem. O que não significa que odeie paralelismos, muito menos revelações e aparições, e quem dirá odiar cinema que trata de fazer cinema. Essas três últimas coisas, eu amo. As três primeiras, rejeito terminantemente. É o que diria Luc Moullet: Definir a arte unicamente como uma forma de explorar um veículo comum a todos me parece uma concepção burguesa da arte: oitenta por cento de pasta, vinte por cento de molho a escolher. É uma concepção que não se pode defender, a não ser que se atribua à arte cinematográfica um papel apenas secundário, de divertimento, um interesse puramente decorativo.

E preciso dizer que não me parece haver nesse movimento de “marketização” dos autores um ensejo de transformar o cinema em arte popular — termo esse que, aliás, me parece mal compreendido desde sempre. Pelo contrário, o que tal processo denota é justamente um movimento inverso, de incutir parafernalhas do circuito artístico para que os filmes — que há muito deixaram de ser filmes e passaram a ser produtos, mercadorias malditas — soem menos genéricos e muito mais descolados. É preciso também que grandes símbolos comprem essa ideia, pois fazem parte do sistema. Nesse caso, falamos de Penélope Cruz e Antonio Banderas. Mas poderiam ser outros, como acontece com Tim Roth e os filmes de Michel Franco. Darín e os filmes de Campanella. Hopkins e Pryce e o último filme de Meirelles etc. A lista é imensa.

Então, surge a pergunta: qual seria a postura adequada frente a esse movimento (nem tão) novo e (nem tão) discreto? Refletir sobre é um primeiro passo. Ou, pelo menos, ter noção de que se está a comer um enlatado vendido como culinária refinada. No meu caso, quando assisti ao filme de Duprat e Cohn, tinha a exata noção de que consumiria os agrotóxicos. Respirei fundo e fechei os olhos, degluti tudo. Vomitei o resto mais tarde. Provavelmente, vou repetir a dose ainda algumas vezes. Afinal, são os produtos que o mercado oferece.

Por Rubens Fabricio Anzolin

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