Perder Jean-Luc Godard

Acordar em um mundo sem Godard é acordar em um mundo sem mistério. 

É acordar em um mundo sem enigmas.

É mais que perder uma parte de nós, é perder uma parte do outro.

Se perdêssemos os cineastas que amamos, perderíamos como a um ente querido: se perdêssemos Wenders, Costa, Eastwood ou Ferrara iria-se também uma parte de nós. 

Já perder Godard é um pouco mais que isso: é como perder o pai, perder o dono, perder o continente todo que segura nossos pés.

Um pedaço duro e maciço de terra que deixa de estar lá.

É mais que perder um sentimento, é perder um pedaço do mundo.

É perder a estrutura, perder o futuro, perder a bússola.

Perderemos não só o criador como também a própria criatura.

Ter Godard entre nós era ter aquela segurança de que algo nos fazia companhia. Como o filho que dorme protegido por saber que o pai está no quarto ao lado. 

Mesmo que não tivéssemos a compreensão exata nem das perguntas e muito menos das respostas que ele nos dava.

O importante é que estava ali – que respirava ainda o nosso ar.

Perder Godard é perder o professor, é perder o que ainda tinha a nos ensinar. É saber que não mais poderemos recorrer aos seus pensamentos, que não mais estará lá para salvar-nos das dúvidas – ainda que nunca tenha sido essa sua intenção.

Perder Godard é perder um pedaço da História. É mais que perder os filmes de Godard (ainda que os filmes sobrevivam), mas é perder o pensamento de Godard (ainda que os textos também sobrevivam). É saber que não poderemos mais colocar nas listas de fim de ano nem suas obras e nem seus futuros projetos. 

Perder Godard é como que perder uma novidade. É como se o mais jovem dos cineastas tivesse partido, muito antes de hora. 

O maior em luz e o maior em sombra. O cineasta de todos os tamanhos.

Hoje foi-se não apenas Jean-Luc Godard como foi-se também uma parte da montagem, uma parte da poesia, uma parte das manchas da obra de arte.

Foi-se não porque o sujeito partiu, mas porque não poderá mais voltar.

Jean-Luc Godard vai agora brincar de signo com as estrelas, vai criar música nas nuvens.

Nunca pensei que chegaria o dia – mesmo que soubesse que chegaria: Jean-Luc Godard est mort.

Nenhum de nós é ainda capaz de entender o real significado dessa frase. 

Muito menos do cometa que acaba de encerrar sua passagem pelo planeta terra.

Merci, JLG. 

(1930 – 2022)

Por Rubens Fabricio Anzolin

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