Um cinema desobediente: voz e corpo | Curadoria Impossível #2

A figura de Maria Bethânia é o fio condutor protagonista de dois curta-metragens que representam antíteses no fazer cinematográfico: Bethânia Bem de Perto (Julio Bressane e Lauro Escorel, 1966) e Ruína (Gabraz Sanna, 2016). Na verdade, falar em figura de Maria Bethânia seria uma simplificação, pois o que está em jogo nos dois filmes não é o que significa ou presentifica Bethânia em tela senão muito mais o que significa e presentifica o seu corpo (Bethânia Bem de Perto) e a sua voz (Ruína).

Em busca da imagem

Muito já se falou que The Blackout (Abel Ferrara, 1997) é um filme de heranças claras para com Hitchcock e Godard – mais especificamente para com Vertigo (1958) e Numéro Deux (1975). Da presença de uma femme dupla (obsessão do protagonista), uma miragem, obviamente, até uma citação direta ao cineasta francês e alguns planos quaseContinuar lendo “Em busca da imagem”

Caos é ordem por decifrar | Curadoria Impossível #1

O cinema brasileiro carece de uma missão importantíssima: redescobrir os filmes de Debora Waldman. Cineasta de apenas dois curta-metragens, Waldman representa uma faísca cintilante no cenário nacional dos anos 90, marcado pelo desmonte e a consequente retomada das produções. De lá pra cá, muita coisa mudou e muitos outros cinemas estabeleceram-se no Brasil – muitos deles (arriscaria dizer, os mais interessantes e plurais) provenientes das regiões menos centralizadas do país.

I’m happy to see you alive

Já faz algum tempo – mais especificamente, desde que passou a viver na Europa – que Abel Ferrara recusa-se a realizar qualquer cinema em que o ensejo principal não seja uma busca de um espaço e de uma amplitude para o corpo poder existir. Foi-se a época em que as imagens poderiam se desvelar aosContinuar lendo “I’m happy to see you alive”

Morrer com os zóio aberto: Sérgio Ricardo (1932-2020)

Texto inspirado em passagens do Discurso de Sebastião, com composição de Sérgio Ricardo, em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). I – O homem não pode ser escravo do homem Não foi. Hoje finou deste plano o geminiano Sérgio Ricardo, de nobreza e contribuição inestimável para o povo brasileiro. Sua música, seuContinuar lendo “Morrer com os zóio aberto: Sérgio Ricardo (1932-2020)”

Fugir, fugir, fugir… – 15 filmes do primeiro semestre (2020)

Não será impossível imaginar uma lista de filmes para o primeiro semestre de 2020, com o pesar de todas as adversidades. No Brasil, o circuito de lançamentos nas salas de cinema ficou restringido em apenas três meses (janeiro, fevereiro e março). De lá para cá, dobraram os lançamentos em streaming e as revisitas fílmicas. AsContinuar lendo “Fugir, fugir, fugir… – 15 filmes do primeiro semestre (2020)”

Movimento para inércia

A chave-mestra do cinema de Harmony Korine sempre se deu dentro da segunda ou terceira camada que as suas imagens apresentam. No início, havia por fora a sensação de estranhamento, os corpos tortos e dilacerados de Gummo (1997), a esquisitice desengonçada de Julien Donkey-Boy (1999). Com o passar do tempo, a estranheza material (em tela,Continuar lendo “Movimento para inércia”

Descaminhos e descontinuidades

1.Confesso que gostei bastante do último de Spike Lee por que é, antes de tudo, um filme de imagens, um labirinto múltiplo de interpretações e subtextos que se acoplam e constituem. Grosso modo, um filme de colagens, por muitas vezes grotesco e direto e, mais do que qualquer coisa, completamente impróprio ao que o cinemaContinuar lendo “Descaminhos e descontinuidades”

Itinerário de um novo mundo – 40 filmes brasileiros da década (2010-2019).

Publiquei aqui, anteriormente, duas listas com aquilo que considerava um conjunto importante de curta-metragens da década (2010-2019) no cinema brasileiro. Sim, é claro que ficaram muitas coisas de fora, como também é claro que muitos dos filmes descartados o foram pois não tive a possibilidade de vê-los. O intuito sempre foi único, criar um inventárioContinuar lendo “Itinerário de um novo mundo – 40 filmes brasileiros da década (2010-2019).”

Os corpos enjaulados

Tatuagem (2013), primeiro longa de ficção de Hilton Lacerda, foi lançado tem sete anos, mais ou menos na mesma época que comecei a estudar cinema. Até hoje, nunca o vi. Tampouco me veio o interesse de visitar o filme. Digo isso por duas razões: a primeira é para acertar as contas com uma ideia umContinuar lendo “Os corpos enjaulados”