A maldição do establishment

Existe um tipo de vírus ou maldição que assola o cinema americano desde (quase) sempre. Trata-se, mais especificamente, de um modelo de encenação decididamente asséptica e articulada com os “grandes temas” do momento, algo como colocar na mesa as pautas do dia para, pouco a pouco, desdobrá-las da maneira mais palatável possível ao gosto doContinuar lendo “A maldição do establishment”

Depois da miragem

Existe algo fincado bruscamente no coração de Uncut Gems que pretende carregar-nos até o final da toca do coelho. Um elo ou pacto com o demônio que irá levar-nos até onde nada é permitido, ao fundo daquilo que as paredes duras da sensorialidade insistem em negar. Este filme restaura alguma capacidade que detinha William FriedkinContinuar lendo “Depois da miragem”

I’m happy to see you alive

Já faz algum tempo – mais especificamente, desde que passou a viver na Europa – que Abel Ferrara recusa-se a realizar qualquer cinema em que o ensejo principal não seja uma busca de um espaço e de uma amplitude para o corpo poder existir. Foi-se a época em que as imagens poderiam se desvelar aosContinuar lendo “I’m happy to see you alive”

Movimento para inércia

A chave-mestra do cinema de Harmony Korine sempre se deu dentro da segunda ou terceira camada que as suas imagens apresentam. No início, havia por fora a sensação de estranhamento, os corpos tortos e dilacerados de Gummo (1997), a esquisitice desengonçada de Julien Donkey-Boy (1999). Com o passar do tempo, a estranheza material (em tela,Continuar lendo “Movimento para inércia”

Descaminhos e descontinuidades

1.Confesso que gostei bastante do último de Spike Lee por que é, antes de tudo, um filme de imagens, um labirinto múltiplo de interpretações e subtextos que se acoplam e constituem. Grosso modo, um filme de colagens, por muitas vezes grotesco e direto e, mais do que qualquer coisa, completamente impróprio ao que o cinemaContinuar lendo “Descaminhos e descontinuidades”

Os corpos enjaulados

Tatuagem (2013), primeiro longa de ficção de Hilton Lacerda, foi lançado tem sete anos, mais ou menos na mesma época que comecei a estudar cinema. Até hoje, nunca o vi. Tampouco me veio o interesse de visitar o filme. Digo isso por duas razões: a primeira é para acertar as contas com uma ideia umContinuar lendo “Os corpos enjaulados”